
O autor angolano Ruy Duarte de Carvalho (n. 1941) é antropólogo
doutorado pela École des Hautes Études en Sciences Sociales,
Paris. Exerceu a actividade de Professor da Universidade de Luanda e foi
Professor Convidado na Universidade de Coimbra (Portugal) e na Universidade
de São Paulo (Brasil). Estudou cinema em Londres e realizou inúmeras
horas de cinema directo filmado entre populações do
sul de Angola. Obras de Ruy Duarte de Carvalho
publicadas no estrangeiro:
Vou lá visitar
pastores
-
Brasil, pela Gryphus
As actas da Maianga
-
Angola, pela Chá de Caxinde
Os Papéis do Inglês
-
Angola, pela Chá de Caxinde
-
Brasil, pela Companhia das Letras de São Paulo
-
Itália, pela La
Nuova Frontiera
Em meados do século passado desembarquei em Lisboa
com uma bicicleta e uma caixa de tintas a óleo na bagagem. Eram
prendas preciosas, uma de aniversário e outra por ter feito o
2º ano do liceu, de que tinha conseguido não me separar quando
por decisão familiar fui nessa altura remetido de Moçâmedes
para fazer em Santarém, num prazo de 5 anos, o curso de regente
agrícola. Mas nem da bicicleta nem das tintas a óleo nunca
mais voltei a fazer uso. Passei esses 5 anos na condição
de aluno interno, a residir no próprio estabelecimento escolar,
e tanto as tintas a óleo, que eram o reconhecimento dos meus mais
evidentes talentos de infância, como a bicicleta, que era uma adjectivação
de gloriosas adolescências coloniais, foram sacrificadas à disciplina
e ao programa da minha estadia em Portugal. Fiz o que tinha a fazer dentro
do prazo previsto, fui sendo bom aluno e isso me foi assegurando o direito
de vir a Angola com passagens por conta do estado durante quase todas
as férias grandes. E em 1960, com 19 anos, voltei definitivamente à jóia
da coroa do império português para começar a fazer
pela vida, até hoje e a partir daí, conforme as circunstâncias
e segundo os meus próprios critérios...
Não estou,
porém, evidentemente, a contar a estória pelo princípio.
Quando de facto fui embarcado em Moçâmedes com destino
a Santarém, eu estava também a ser remetido ao exacto
local do meu nascimento biológico e de onde, mais cedo portanto,
tinha vindo com a família, que entretanto emigrava arruinada
mas servida ainda de criada branca e acompanhada de cães de
caça, desembarcar em Moçâmedes. De qualquer maneira
o que me calhou na vida foi estar de volta a Angola com um curso médio
já feito quando a maioria dos sujeitos angolanos da minha classe
etária e com recursos para estudar, com alguns dos quais eu
tinha feito o 2º ano do liceu, estava a ser, por sua vez, expedida
para a metrópole para estudar em faculdades. Não beneficiei,
assim, nem de uma iniciação universitária comum
nem da escola de cativação ideológica que também
foi para a minha geração a casa dos estudantes do império,
por exemplo, e pelo menos duas consequências maiores para o meu
percurso biográfico terão resultado desta configuração
das coisas : a primeira é que o lugar onde vim ao mundo, na
Europa, sempre constituiu para mim, desde que me lembro a enfrentar
a vida e a reflectir nas coisas, uma referência de exílio;
a segunda é que tudo quanto pela vida fora se me foi revelando
em termos de relação com o tempo histórico que
foi o meu, e determinando o meu lugar cívico no mundo, acabou
de uma maneira geral por me ocorrer a maior parte das vezes de maneira
directa, física e existencialmente interpelativa, e não
raro brutal, para só vir a impor-se de forma ainda assim mentalmente
muito elaborada e muito ruminada, nalguns casos, teoria ajudando, quase
sempre só depois.
*
Lembro-me
de ter nascido, ou então
de ter mudado inteiramente tanto de alma como de pele, pelo
menos uma meia dúzia de vezes ao longo da vida e nenhuma delas
foi lá onde terei, pela primeira vez, dado conta da luz do mundo.
De que havia uma matriz geográfica que essa é que
me dizia de facto muito intimamente respeito pela via quem
sabe de uma
qualquer memória genética, dei conta aos doze
anos - lembro-me sempre de cada vez que ainda por lá passo
e se calhar é para isso que ando sempre a ver se passo
por lá –
a comer pão e com um ataque de soluços no meio
do deserto de Moçâmedes, por alturas do Pico do
Azevedo. E de que havia uma razão de Angola que colidia
com a razão de
Portugal, disso dei definitivamente conta já a trabalhar
nas matas do Uíge quando, em março de 1961, eclodiu
a sublevação
nacionalista no norte de Angola. Sobrevivi então aí absolutamente à justa
e a tempo de me refazer de tanta perplexidade e de tanto horror,
tanto insurreicional como repressivo, quando a seguir, numa
memorável
noite em Luanda, houve quem me sussurrasse, em passeio pelas
ruas da baixa, versos nacionalistas de Aires de Almeida Santos
e de Viriato
da Cruz que me revelaram uma alma de Angola que se me vinha
oferecer sob medida e pela via do arrepio para eu ajustar à razão
de Angola que a sublevação tinha acabado de me
dar a reconhecer in vivo, e de que a partir daí passei
a socorre-me para ver se conseguia conferir algum sentido à condição
de orfão do império a que a vida, apercebi-me
logo, me tinha destinado. Quando logo a seguir, também,
a idade e o desamparo me colocaram com um papel na mão
para apresentar-me no Huambo ao serviço da tropa colonial,
e depois fui transferido para Luanda, já tinha conseguido
que alguns mais-velhos da luta clandestina nacionalista me
atribuíssem mínimas
tarefas menores, como dactilografar, para posterior distribuição
pelos musseques, poemas de revolta de autoria anónima
e esclarecedora má qualidade. Mas depois foi uma data
de gente presa e a tropa só não me entregou também à pide
porque o comandante da secção de justiça
do quartel a que eu pertencia era casado com uma filha de Moçâmedes
e decidiu arriscar, e os informou que preso já eu estava,
por razões disciplinares. Passei ainda uns tempos fardado
de soldado português a fazer desenhos no quartel-general,
mas depois fui requisitado, como técnico agrário,
pelo instituto do café, e mandado para a Gabela e mais
tarde para Calulo. Ligações políticas
efectivas com a insurgência
nacionalista, nunca mais encontrei maneira de as restabelecer...
e também nada ajudava... nem a cor da pele que é a
minha nem o cargo de engenheiro que ocupava... e o máximo
que consegui foi ser dado como persona non grata pela administração
do Libolo, junto com um padre basco e um médico português,
e afastado compulsivamente dali. Pouco para currículo político.
Arranjei
então outro emprego e mudei para a Catumbela, onde fui
responsável
pela pecuária de uma grande empresa açucareira.
E foi nessa condição que levei tal volta passados
três
anos - de mim para mim e a sós ou quase e a arriscar os
meus primeiros poemas afundado no interior do imenso platô de
Benguela, extremo norte do deserto do Namibe, onde, em plena
fúria,
tinha posto cinco mil ovelhas a pastar e a parir e doze furos
artesianos a puxar água do fundo do deserto - , levei
então
tamanha volta que andei os três anos seguintes a derivar
pelo mundo. Estive em Hamburgo, em Copenhaga e em Bruxelas, sempre
na pista da insurgência nacionalista, mas quando finalmente
consegui chegar a Argel, para contactar com as forças
da luta, ninguém ali me levou a sério ou então
voluntaristas como eu já tinham lá que chegasse
e até nem sabiam muito bem o que é que lhes haviam
de fazer. Foi depois disso e de outros precalços que acabei
mais tarde por ver-me a exercer funções de chefe
de fabricação de cerveja em Lourenço Marques
- Maputo - e estive a seguir em Londres, com um dinheiro que
pedi emprestado, a fazer um curso de realização
de cinema e de televisão. Na sequência dessa volta
toda é que
acabei por voltar a Angola em 1974 e por passar a noite de 10
para 11 de Novembro de 1975 no município do Prenda, em
Luanda, a filmar às zero horas, que foi uma hora zero,
a bandeira portuguesa a ser arreada e a de Angola a subir no
mastro.
*
Se a razão para estar
agora aqui a contar estas passagens da minha vida é ter escrito
até hoje
meia dúzia de livros, então já nessa
altura, quando foi da independência, tinha o primeiro
livro de poesia publicado. Era o resultado da volta que tinha
levado na
Talamanjamba, no interior do platô de Benguela. E tinha
muita escrita alinhavada e era a altura e a idade de anotar
quase tudo. Quase tudo poesia. E disso dirão os próprios
livros. Quanto à vida cívica, de cidadão
angolano comum, de opção e de condição,
de 75 até 81 fiz pela a vida e pela revolução
realizando filmes para a televisão angolana e para
o instituto angolano de cinema. E guardo a satisfação
muito particular de ter visto a bandeira de Angola hasteada
em muito
lugar distante e mítico do mundo, em Samarkanda, por
exemplo, precisamente por eu estar lá com trabalho
meu. Mas entretanto foi deixando de dar para continuar a
querer fazer cinema, e escrevi
então um texto académico anti-cinema-etnográfico
para juntar a um dos filmes que tinha feito – Nelisita –
e obtive com isso o diploma da escola de altos estudos em
ciências
sociais, de Paris, o que me deu imediato acesso à condição
de doutorando. Foi então o meu tempo de investigações
de terreno, nas praias piscatórias de Luanda, e da
minha modesta participação na reformulação
de toda a teoria das identidades colectivas, em Paris. Durante
essa meia dúzia de anos vivi entre pescadores, nas
praias da Samba Grande e do Mussulo, e doutores, na Sorbonne
e no Boulevard
Raspail. A partir de 87, já doutorado, passei a dar
aulas de antropologia social para arquitectos, na universidade
de Luanda,
e a aproveitar sabáticas para ir dar aulas também,
e consumir bibliotecas, em Paris outra vez, Bordéus,
São
Paulo, Coimbra... Em 89 andei ainda por Cabo Verde a tentar
filmar de novo, mas isso é mais é para esquecer.
Depois, a partir de 92, fui arranjando maneira de ir passar
cinco meses,
todos os anos, misturado com os pastores do Namibe de quem,
desde menino, andava a querer saber como conseguiam organizar
a sua
sobrevivência e a sua existência, tão
diferenciada de tudo quanto os pressionava à volta.
Foi para dar notícia
disso sem ter de escrever naquele tom da escrita académica
– de teses e artigos fui achando que já tinha tido
a minha dose - que adoptei então essa maneira de escrever
que depois me pôs na pista de uma meia-ficção-erudito-poético-viajeira
em que venho insistindo.
..........................................................
Hoje continuo a não
conseguir andar por fora muito tempo sem devolver-me ao murmúrio
de Luanda, à noite,
que sobe das traseiras da minha casa na Maianga, onde a vizinhança
me trata por brancurui, e sem continuar a meter-me sempre que posso
por esses suis abaixo, a penetar desertos e a inventar pastores.
Procurei sempre, sob qualquer situação ou regime,
e fosse quem fosse que estivesse a mandar, viver a condição
de cidadão comum. Lido mal com o privilégio, caiba
ele a quem couber, até a mim mesmo, e nunca consegui deixar
de sentir-me, tanto antes como depois da independência, tido
como minoritário, quer dizer, subalterno ou intruso que
incomoda sempre, desde que dê nas vistas. Acho que entretanto
sosseguei bastante, na vida, quando, já faz algum tempo,
dei conta que afinal não só jamais viria a ser o
melhor do mundo, quanto mais cá na banda. E que também
não tinha
obrigação nenhuma de o ser. Mas uma das questões
pessoais que se me anda agora, com a idade, a por com mais frequência, é a
de saber se será possível continuar a envelhecer
sem sucumbir de todo a uma senilidade insuportavelmente azeda ou
sem
incorrer também numa dessas beatitudes patetas e patéticas
que pretendem fundamentar-se numa sabedoria qualquer que a idade
acumulada por si só garantiria. É verdade que um
percurso biográfico se faz de tempos, de lugares, modos,
percepções,
ocorrências, experiências, resultados, aquisições,
perplexidades, digestões e ressacas. Mas também é verdade
que eu não vou nunca deixar de permanecer muito irremediavelmente
ingénuo, embora não de todo burro, e de lidar muito
mal com toda a ordem de leviandade, de irresponsabilidade, de arbitrariedade,
de mentira, de prepotência, chantagem, esperteza, insolência
e soberba, e de achar que o que mais envenena as relações
entre as pessoas, quaisquer relações, é o
uso e o abuso da boa-fé dos outros. E é disso que
o mundo está cheio e a bem dizer se faz. E há de
fazer-se sempre, talvez, porque afinal, parece, é assim
mesmo que ele é.
Temo não chegar nunca a ser capaz, mesmo senil, de vir a
conformar-me com isso. E o resto são umas ideias minhas
que ando ainda cá com elas.
Ruy Duarte de Carvalho
|