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Actualmente co-editada pela editora
Sette Letras, pela parte brasileira, e pelas editoras Cotovia e Angelus
Novus,
pela parte portuguesa, a revista de poesia Inimigo Rumor é um projecto
absolutamente singular, no campo da lusofonia, antes de mais porque resulta
de um intercâmbio não «provocado» ou «incentivado» por
instituições dos dois países, mas sim suscitado por
um processo crescente de diálogo entre poetas e críticos das
duas margens do Atlântico.
Convirá contudo esclarecer que a revista em causa, hoje com 12 números
editados, não nasceu agora: em rigor, dever-se-ia dizer, sim, que renasceu
ao número 11. De facto, a revista de poesia Inimigo Rumor teve o seu primeiro
número publicado em Janeiro de 1997, no Rio de Janeiro, pela Editora Sette
Letras. Dirigida ao início por Carlito Azevedo e Júlio Castañon
Guimarães e hoje pelo mesmo Carlito Azevedo, Augusto Massi e Marcos Siscar,
a revista, de periodicidade semestral, publicou em 2001 o seu nº 10, o que é sempre
de assinalar em publicações de poesia, dadas as consabidas dificuldades
de mercado que este género literário enfrenta.
Com estes 10 números, Inimigo Rumor conseguiu alcançar no Brasil
um estatuto de revista de referência nas publicações periódicas
que se dedicam à poesia contemporânea, embora sem descurar o seu
enquadramento na tradição da poesia brasileira, bem como na da
poesia universal. Assim, as páginas de Inimigo Rumor deram guarida às
vozes mais significativas da poesia brasileira de hoje, de Haroldo e Augusto
de Campos a Marcos Siscar, Simone Brantes, Italo Moriconi ou Paulo Henriques
Britto, passando por Cacaso, Ana Cristina César, Francisco Alvim, Duda
Machado, Dora Ribeiro, Sebastião Uchôa Leite, Eudoro Augusto, Arnaldo
Antunes e tantos outros.
A revista evidenciou sempre a preocupação de publicar, em traduções
cuidadas, alguns dos grandes nomes da poesia moderna. Refiram-se os nomes de
Paul Celan, Frank O'Hara, Osip Mandelstan, Federico García Lorca, Francis
Ponge, Wallace Stevens, e.e. cummings, Gertrude Stein, René Crevel, José Angel
Valente, etc.
Ao mesmo tempo que prestava uma atenção especial à edição
de textos poéticos, a Inimigo Rumor distinguiu-se pela importância
da sua componente ensaística, na qual pôde contar com os nomes de
maior relevo no Brasil, de Antonio Candido (ensaísta já galardoado
com o maior prémio literário de língua portuguesa: o Prémio
Camões) a Luiz Costa Lima, Heloisa Buarque de Holanda, Sergio Alcides,
Ronald Polito, Flora Süssekind, Horácio Costa, etc. Ainda no campo
da ensaística, a Inimigo Rumor incluiu desde cedo a participação
de nomes estrangeiros como Michel Deguy, Jacques Roubaud e outros, revelando
a intenção pedagógica de traduzir para português ensaios
fundamentais sobre lírica de autores como Erich Auerbach, Gerard Manley
Hopkins ou Jacques Derrida.
Explorando as relações de proximidade linguística e cultural,
Inimigo Rumor foi também concedendo especial destaque à poesia
da América latina e da Espanha. No nº 9, a revista dedicou um dossier à jovem
poesia portuguesa, publicando «10 novos poetas de Portugal», dedicando
em seguida, no nº 10, um dossier a Adília Lopes (poemas da autora,
entrevista e ensaios sobre a sua obra).
Na sequência desta redobrada atenção à poesia portuguesa,
a direcção de Inimigo Rumor propôs que a revista passasse,
desde o nº 11, a ser uma publicação luso-brasileira, em regime
de co-edição entre, do lado brasileiro, a editora Sette Letras
e, do lado português, as editoras Angelus Novus e Livros Cotovia. A direcção
da revista passou a integrar, além dos brasileiros Carlito Azevedo, Augusto
Massi e Marcos Siscar, os portugueses Américo Lindeza Diogo, André Jorge
e Osvaldo Manuel Silvestre. A sede social da publicação é agora,
no Brasil, Rua Visconde de Carandaí, 6, Jardim Botânico - Rio de
janeiro, CEP 22460-020 e, em Portugal, a sede de Livros Cotovia.
Não serão necessárias mais palavras para se perceber a importância
de que se pode revestir esta publicação no diálogo cultural
entre Portugal e o Brasil, funcionando ainda como um veículo de difusão
da poesia africana de língua portuguesa em ambos os países, já que
foi sempre intenção da direcção portuguesa abri-la
também à componente africana do mundo lusófono (o que é patente
na inclusão, no nº 12, de poemas do angolano Ruy Duarte de Carvalho
e de traduções do luso-moçambicano Rui Knopfli). Acresce
ainda que uma revista com este perfil, em bom rigor, nunca existiu: de facto,
a componente brasileira do órgão modernista Orpheu foi mais simbólica
que efectiva, o que se viria a repetir largamente com a presença; e, do
lado brasileiro, a presença portuguesa no diálogo com a poesia
e a literatura brasileira das últimas décadas, tem vindo a esbater-se
e a ser substituída por um diálogo preferencial ou com a América
Latina, ou com a Europa Central (França, Inglaterra e Alemanha, sobretudo),
ou com a América do Norte. Daí a acrescida importância, para
Portugal, antes de mais, de uma publicação pensada sem condescendências
nem falsas amizades, mas sim como um espaço de mútuo (re)conhecimento;
tanto mais que, insistimos, se trata da revista de referência no campo
da poesia no Brasil de hoje, pelo que funcionará como uma montra preciosa
para a produção poética e crítica portuguesa. Nesse
sentido, a direcção luso-brasileira da revista acordou em que ela
terá uma dimensão média de 200 pp., sendo 100 delas atribuídas à parte
brasileira e outras 100 à portuguesa. Os textos suceder-se-ão contudo
sem separadores, passando-se assim em plena naturalidade da poesia e crítica
portuguesas à brasileira e vice-versa.
A revista é semestral, como vinha sendo até aqui.
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