Os Artistas Unidos estrearam Acamarrados no Centro Cultural Malaposta a 27 de Março de 2008, com interpretações de Carla Galvão e António Simão.
ACAMARRADOS
Um pai e uma filha presos a uma cama suja. Cada um deles conta compulsivamente a sua história: o pai fala da ascensão e queda da sua empresa de móveis, a filha de um passeio na praia, das histórias que a mãe lhe lia — do que quer que seja, desde que encha o silêncio. Até que as histórias se cruzam, neste momento e nesta cama, onde é tudo frenético, cruel e feio, mas onde talvez seja finalmente possível uma verdadeira conversa entre os dois, e talvez consigam então parar e dormir.
“Em Acamarrados o pai construiu paredes e mais paredes dentro de casa, até a filha estar numa caminha; pôs paredes à volta, e entrou, também ele, para a cama. E a história é: por que raio é que ele fez isso? E em termos da linguagem ou da estrutura da peça, isso precisa de ser filtrado pela cabeça dele, pela loucura dele. As frases… Se estivermos numa sala grande, eu posso continuar a falar sem parar, mas num espaço mais pequeno, se houver uma parede, tenho uma imagem visual das falas que voltam para trás. Por isso as frases têm de ser mais curtas, tem de haver mais staccato. Este tipo de coisas. Eu penso muito nos efeitos que o ambiente vai ter na linguagem, na psicologia das personagens, na estrutura da peça.”
Enda Walsh
PAI Estás a fazer com que eu me vá embora!
FILHA Não!
PAI Posso ir. (Está a sangrar da boca.)
FILHA Não vás!
PAI O que interessa é que era capaz! O que interessa é que era capaz de ir! O que interessa é o que interessa… (Ligeira pausa.) Estou a sangrar!
FILHA O quê?
PAI (destroçado) Estou vivo. (Pausa.) Ainda estou vivo. Foda-se.
FILHA (para si própria, maravilhada) Estou viva!
Enda Walsh, in "Acamarrados"
A FARSA DA RUA W
Uma peça admirável sobre o que pode acontecer quando ficamos presos nas histórias que contamos das nossas vidas. Profunda e terna, A Farsa da Rua W engloba momentos hilariantes com uma realidade chocante.
São onze horas da manhã num apartamento municipal na Rua Walworth em Londres. Dentro de duas horas, como é costume, três homens irlandeses terão consumido seis latas de Harp, quinze biscoitos barrados com queijo, dez biscoitos folhados cor-de-rosa e um frango cozinhado no forno. Dentro de duas horas, como é costume, cinco pessoas serão mortas.
The Walworth Farce estreou a 20 de Março de 2006 no Town Hall Theatre, Galway, com interpretação de Denis Conway, Garrett Lombard, Aaron Monaghan e Syan Blake.
Dinny O que é isto?
Blake (a fazer de si próprio) Sandes, pai.
Dinny Sandes feitas com Ryvita?
Sean Não havia pão às fatias no Tesco, pai.
Dinny É um supermercado, não é?
Sean Eu sei mas…
Dinny Não foste lá?
Sean Fui, pai.
Dinny Não foste.
Sean Fui.
Dinny Não me respondas senão eu chego-te!
Blake Se calhar podíamos –
Dinny Tu cala-te! A história pede pão de forma às fatias, não pede?
Sean Eu sei, mas –
Dinny A história não funciona se não estivermos na posse dos factos, e Ryvitas não são os factos… nem sequer estão perto dos factos. Um cacete integral está perto dos factos, uma baguete ainda assim anda lá perto, mas uma Ryvita?… Uma Ryvita é gozar com a nossa cara, Sean. Uma Ryvita é um grande esforço da imaginação.
Blake O queijo está certo.
Enda Walsh, in "A Farsa da Rua W"
AS PEQUENAS COISAS
Duas cadeiras, uma mesa, uma janela alta. Uma velha, um velho. Ambos contam a sua história. Contam sobre uma aldeia em que se cortam as línguas às pessoas. Contam sobre um rapaz de dez anos deitado nos bosques, espancado até à morte, a sua língua cortada. Contam de crianças em fila perto da piscina local – azuis com o frio nos seus fatos de banho – à espera para lhes serem cortadas as línguas e depois serem imersas na piscina. É claramente uma história que têm necessidade de contar...
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