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livrinhos de teatro - Artistas Unidos

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A Minha mulher

ISBN:978-972-8972-10-3
Seguido de:  
€7,00
Onde vamos morar    

 

Os Artistas Unidos e as edições Cotovia lançam um volume com dois textos de José Maria Vieira Mendes, autor que revelaram em 1998 com Dois Homens. Neste 24º volume dos Livrinhos reunem-se duas peças, A Minha Mulher com estreia marcada para Setembro no TNDM e Onde Vamos Morar escrita para os Artistas Unidos e, neste momento, sem data nem local de apresentação. A Minha Mulher recebeu o Prémio Luso-Brasileiro de Dramaturgia António José da Silva criado pelo Instituto Camões e a Fundação nacional de Arte do Brasil (Funarte) (edição 2007). Um júri composto por João Carneiro (presidente), João Lourenço, Eugénia Vasques, pela parte portuguesa, e Reinaldo Maia, Fernando Peixoto, Marco António Rodrigues, pela parte brasileira, deliberou, por unanimidade, atribuir o Prémio a A Minha Mulher de José Maria Vieira Mendes.

A MINHA MULHER

Um pai, uma mãe, o filho destes (Nuno), a sua mulher (Laura) e um amigo de família (Alexandre), todos numa casa de férias, num verão quente. Os dias repetem-se, pastosos, secos e amargos, num carrossel fechado, agoniante, de insultos e maus tratos e conflitos, ignorados ou escondidos por uma escuridão que os abafa. E apesar de a convivência se tornar cada vez mais intragável, de as acusações endurecerem, nenhuma mudança se descortina, nenhuma atitude que permita avistar um fim.
A Minha Mulher de José Maria Vieira Mendes partiu da vontade de pensar em teatro sobre o embate travado por duas gerações. E acabou numa reflexão sobre a memória, sobre a repetição e o amor, sobre a escrita para teatro também e sobre o escuro.

Esta peça começou a ser escrita depois da leitura de peça em um acto de Strindberg Brincar com o Fogo

(…)
PAI Amanhã vens ao mercado?
LAURA Posso ir.
PAI Aquilo é que é vida. Gente que fala alto. Sempre gostei dos mercados. Quando era miúdo trabalhava no verão no mercado, carregava as caixas e assim. Ganhar uns tostões.
LAURA Também já me tinha contado isso.
PAI Já?
LAURA Ontem.
PAI Estou a ficar velho. Não parece, mas é nestas coisas. A gente de repente olha para o calendário e apercebe-se de que já nasceu há não sei quantos anos e já viu muita coisa. E pomo-nos a pensar e dá que pensar, sabes, dá que pensar esta sensação de que nos estamos a repetir. Não é só nas perguntas e nas histórias que contas, é também na maneira como entras e sais do carro, como bebes um copito. Quando chegas à minha idade descobres que andas há uma data de tempo a fazer uma série de coisas da mesma maneira. Até dá vontade de chorar. Ou dar um tiro nos cornos. Já houve tantos que quinaram. Dava para abrir um cemitério. Enfim, a morte… Não há nada a fazer. Antes de nascermos já estamos mortos.
Mas do que é que eu estava a falar?
LAURA Do mercado.
(...)

José Maria Vieira Mendes, in A minha mulher

A estreia nacional de A Minha Mulher realiza-se a 13 de Setembro de 2007 no Salão Nobre do Teatro D. Maria II, com encenação de Solveig Nordlund e interpretação de José Airosa, Joana Bárcia, João Lagarto, Isabel Muñoz Cardoso e Dinarte Branco. Foi apresentada em Estocolmo, na Suécia, em Maio de 2007, numa produção Teater Oberon/ Dramalabbet, com encenação de Karl Seldahl e interpretação de Kajsa Linderholm, Eva Millberg, Victor Ström, Hendrik Törling e Sven Wollter.

ONDE VAMOS MORAR

De novo pais e de novo filhos. Américo é o pai, doente e solitário. Vítor, o seu filho, casado com Gabriela que o deixa para partir em viagem. Patrícia, a irmã de Gabriela, vive na casa da infância, vazia agora que os pais morreram. Gustavo regressou depois de vinte anos fora do país e procura uma casa onde ficar e o pai que já há muito não via. Mas encontra apenas Vânia, a sua meia-irmã, que está ainda no princípio. E por último Mário, que trabalha como estafeta para uma florista incompetente que se engana sucessivamente na morada dos clientes.
São sete as personagens, deambulando pelas suas histórias e cruzando-se umas com as outras, numa teia irregular que todos une. Gente que entra e sai numa cidade onde muita coisa se esconde ou não se vê, onde as ruas ficam desertas à noite e por onde passa um comboio que não se sabe para onde vai.
Desencontros, partidas e abandonos. A morte, sempre. Uma peça sobre a morte, sim, o escuro, claro, mas também sobre a distância, o regresso, o esquecimento, a procura de uma morada, uma casa, só. E uma peça também sobre o fim do diálogo.
Para José Maria Vieira Mendes, a conclusão de um tempo e o arranque de outro.

(…)
GUSTAVO Escrevia-lhe todos os meses. Mas ele nem lia. O meu pai.
Nunca respondeu. Até que desisti. E cresci. (Ri-se.)
Quinze anos, minha amiga. Aqui.
Até aos meus quinze. Está tudo na mesma.
Não mudou nada. Nem o papel da parede.
Quinze anos aqui.
Depois a minha mãe levou-me com ela.
A minha mãe nunca gostou do meu pai. E vice-versa.
Eu nunca gostei de nenhum deles.
Tenho dificuldade em gostar das pessoas.
Estou sempre muito atento aos defeitos. Não me escapam.
Isso não ajuda, o olho afinado para os defeitos.
Não ajuda, não.
Tenho encontrado cada coisa.
Depois fica mais difícil de gostar.
Mas adaptei-me, alimentei-me e agora resolvi regressar.
Regresso às origens. Acredito nessas coisas.
Acredito em muitas coisas.
A descoberta da pureza, da inocência. Sou um tipo espiritual.
E chegas a uma altura da tua vida em que precisas de encontrar o teu lugar.
O meu lugar.
E o meu lugar é aqui.

(…)

José Maria Vieira Mendes, in Onde vamos morar

Onde Vamos Morar escrita para ser produzida pelos Artistas Unidos na temporada 2007-8, é aqui publicada antes da estreia, pelo que o texto poderá vir a sofrer algumas alterações.

José Maria Vieira Mendes nasceu em 1976 e escreve e traduz para teatro. Foram produzidas, entre outras, as suas peças Dois Homens (1998), Lá ao Fundo o Rio (2000), T1 (2003) e Se o Mundo Não Fosse Assim (2004), estas duas últimas publicadas nos Livrinhos de Teatro. Mais recentemente escreveu Duas Páginas (2007), O Avarento ou A Última Festa (2007) e as peças curtas Proposta Concreta (2005), Intervalo (2006) e Domingo (2007).

Traduziu teatro de Samuel Beckett, Jon Fosse, Harold Pinter, Duncan McLean, Heiner Müller, Fassbinder e Bertolt Brecht. É um dos responsáveis pela nova edição portuguesa do Teatro de Bertolt Brecht nos Livros Cotovia.

O seu trabalho no teatro está desde sempre e de vários modos ligado aos Artistas Unidos e também, mais recentemente, ao Teatro Praga. Frequentou, em 2000, a International Summer Residency do Royal Court Theatre de Londres e esteve em 2005 em Berlim com uma bolsa da Fundação Calouste Gulbenkian.

T1 foi traduzido para inglês, francês, italiano, espanhol, polaco, norueguês e alemão. A Minha Mulher foi traduzido para inglês e sueco, e será em breve traduzido para francês, eslovaco e italiano. Peças suas foram já representadas, recentemente, na Alemanha ( Berlim) e na Suécia ( Estocolmo).

Outros livros do autor publicados por Livros Cotovia: Teatro, T1 / Se o Mundo não fosse assim (em co-edição com os Artistas Unidos), Ana (em co-edição com os Artistas Unidos).

 

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