Prossegue,
nos LIVRINHOS DE TEATRO, a publicação do Teatro de Pier
Paolo Pasolini iniciada com o nº 16 (Orgia e Pocilga). BESTA DE
ESTILO saiu acompanhando a apresentação em Lisboa
(Culturgest) do espectáculo homónimo dirigido por Antonio
Latella.
Se os romances de Pasolini foram editados em Portugal durante a ditadura
e o cinema começou a ser visto a partir do Evangelho Segundo S.
Mateus, já o teatro de Pier Paolo Pasolini só viria a ser
revelado em Portugal em 1985 por Mário Feliciano que dirigiu,
no Acarte, Pílades (numa tradução feita com Luíza
Neto Jorge), tendo, em 1986, apresentado no Teatro do Ginásio
Calderón (em tradução feita com António Barahona).
Cerca de dez anos depois, em 1996, estrearam Afabulação
com direcção de Luís Miguel Cintra, no Teatro da
Cornucópia e Orgia no Teatro Politeama com encenação
de Celso Cleto. Mais recentemente o Teatro Nacional D. Maria II produziu
Orgia com encenação de João Grosso.
Em
2006/7 sairão do mesmo Autor:
PILADES (tradução de Mário Feliciano e Luíza
Neto Jorge) e CALDERÓN (tradução de Mário
Feliciano e Antóno Barahona).
BESTA DE ESTILO, tragédia
em nove episódios,
começa, no final dos anos 30, com a apresentação do
jovem de vinte anos Jan, masturbando-se junto ao rio que banha a aldeia boémia
de Semice. Através deste acto se manifesta o amor de Jan à poesia
e ao povo: e é justamente o partido do povo que ele decide tomar,
tendo para isso de aceitar a identificação populista do Estado
e da Religião com o Bem, porque o povo não suspeita que exista
nada para lá destes elementos. Até que um amigo lhe dá a
notícia
de que os alemães invadiram a Checoslováquia. Primavera de
44, na montanha, no meio dos resistentes: Karel foi enforcado e, sob a forma
de
Espírito, anuncia a Jan a deportação e a morte dos seus
pais num campo de concentração, enquanto a irmã é a
amante de todos os soldados alemães. Até que entramos em Praga,
depois do fim da guerra. Jan consegue captar a língua dos seus ‘falantes’
que, subproletários, provocam escândalo. Jan irá depois
a Moscovo para ser agraciado com o Prémio Stalin. Mas em Praga, uma
manifestação estudantil contesta os intelectuais do regime,
entre os quais o próprio Jan. O poeta volta à sua aldeia, onde
a Irmã lhe
confessa que a ele deve a descoberta do sexo, revelando-lhe que são
o desdobramento de uma única pessoa. Aparece agora a Sombra do Pai
para profetizar a invasão de Praga pelos tanques soviéticos
em 1968. A tragédia conclui com a discussão, entre O Capital
e A Revolução,
que disputam Jan.
O ponto de partida da obra é a reflexão iniciada durante uma viagem
a Praga em 65, em que Pasolini encontra os intelectuais s e discute com eles
o papel do intelectual e a questão da liberdade do escritor. Mas é uma
obra que permaneceu incompleta, que o autor permanentemente retomou. Se a começou
em 1965, como as restantes tragédias, é evidente que a referência à invasão
dos tanques soviéticos provem de posteriores correcções.
Deste período posterior é também a escolha do nome do protagonista,
que lembra Jan Palach, o estudante de Praga que, em Janeiro de 1969, se suicida
publicamente pelo fogo, em protesto contra a invasão soviética.
BESTA DE ESTILO é a mais anómala das tragédias de Pasolini,
não só pela duração da composição,
de 1966 a 1975, num contínuo trabalho de acumulação de
materiais que revela um impulso interior maior do que nas outras cinco, mas
também
pelo seu valor autobiográfico. A obra conta efectivamente o percurso
de um homem que parte da decisão de ser poeta em virtude de uma sua
sensualidade ‘diversa’, aqui simbolizada pela masturbação no
canavial, e de um amor à sua própria terra rural, e que passa
depois pela consciência
política, chegando finalmente à definição do estilo,
ao escândalo da Heresia e à consagração pela cultura
oficial.
Pier Paolo Pasolini nasceu
a 5 de Março de 1922 em Bolonha.
Filho de um militar, seguiu o pai nas várias mudanças de terra,
mas frequentou o liceu e a faculdade em Bolonha, onde teve foi aluno de Gianfranco
Contini e Roberto Longhi. Passava os Verões em Casarsa, na região
do Friuli, cidade de origem da mãe. Aí se refugiou, em 1943,
para fugir à incorporação no exército. Compôs
os primeiros poemas em dialecto friulano, Poesie a Casarsa (1942), publicados
mais tarde, com outros textos friulanos, em La Meglio Gioventù (1958).
Em 1945, soube que o irmão mais novo, Guido, tinha sido morto pelos
titistas num conflito entre dois grupos de partigiani. Em 1947, inscreveu-se
no Partido Comunista. Trabalhou como professor, numa aldeia perto de Casarsa,
mas seria despedido e expulso do PCI por um obscuro episódio de alegada
corrupção de menores. Esse foi o primeiro de uma enorme lista
de processos (mais de 30) que deram a Pasolini a consciência da sua diversidade
e marcaram o seu destino de marginalizado e rebelde.
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