«"Caminho
do Céu"
parte de um acontecimento que me impressionou muito: um delegado da
Cruz
Vermelha visitou um campo de concentração
e fez um relatório relativamente favorável. A personagem
interessou-me muito, achei que se parecia comigo e com muita gente
que me rodeia, pessoas que querem ajudar e não são suficientemente
fortes. Construí uma ficção onde o campo é disfarçado
de cidade normal, com um comandante que é uma espécie
de Próspero, alguém que tem a possibilidade de fazer
a obra de arte total, a grande peça de teatro diante deste delegado.
A terceira personagem que me interessava era o que fazia o papel de
presidente da câmara, o interlocutor entre o comandante e as
vítimas que por um lado coopera com o verdugo e por outro ganha
tempo, não o levam para a câmara de gás porque
participa num jogo. Uma quarta personagem, colectiva, são os
pequenos judeus a quem vemos sempre não na vida mas na representação
da vida. Há um que é o vendedor de balões, porque
o comandante lhe disse para fazer de vendedor balões. É uma
peça que fala da necessidade que temos de mentir uma e outra
vez e de como se dá uma segunda morte às vítimas
quando se lhes pede que intervenham no relato do verdugo.
Em "Animais Nocturnos",
um homem utiliza a lei da emigração para dominar outro.
A lei da emigração é a lei mais importante, é a
verdadeira constituição, porque divide a sociedade em
dois, os legais e os ilegais; e os ilegais estão à mercê dos
legais. Pus a hipótese de que um homem legal se servisse desta
diferença para transformar outro em escravo, para lhe completar
os desejos. Não lhe pede que trabalhe para ele, mas sim coisas
como: “Agora dá um passeio comigo, vais ser o amigo que eu nunca
tive.” A lei da emigração é uma lei perversa que
coroa uma sociedade perversa: tratamos assim os estrangeiros porque
tratamos os outros assim. Mostra que os direitos humanos são
uma ficção, uma fantasia. Só existem os direitos
da cidadania, associados a passaportes, a documentos. Mas aceitar isto é gravíssimo,
porque me põe também a mim em perigo. Aceitar a lei supõe
que o estado pode a dado momento declarar-nos a nós invisíveis
e ilegais.»
Juan Mayorga em entrevista
publicada na Revista "Artistas Unidos"
Biografia:
Juan Mayorga nasceu
em 1965 em Madrid. Licenciado em filosofia e matemática, dedicou-se à filosofia
da história e da estética. A sua tese de doutoramento
intitula-se “A filosofia da História de Walter Benjamin” e
aborda as obras de Walter Benjamin, Ernst Jünger, Georges Sorel,
Donoso Cortés, Carl Schmitt e Franz Kafka. É membro
do grupo de investigação " O Judaismo. Uma tradição
esquecida na Europa” do Instituto de Filosofia do Conselho Superior
de Investigação Científica. Publicou em 2003
( edições Anthropos de Barcelona) o ensaio "Revolución
conservadora y conservación revolucionaria. Política
y memoria en Walter Benjamin". É autor de vários
textos sobre Lope de Vega, Artaud, Dürrenmatt, Heiner Müller,
Valère Novarina e José Sanchis Sinisterra, entre outros. É membro
do conselho de redacção da revista “Primer Acto”. Ensina
dramaturgia e história das ideias na Real Escuela Superior
de Arte Dramático de Madrid. Frequentou os seminários
de dramaturgia dirigidos por Marco Antonio de la Parra e José Sanchis
Sinisterra, assim como a Royal Court Theatre International Summer
School de Londres em 1998. Do seminário dirigido por Marco
Antonio de la Parra en 1992, nasceu um pequeno grupo de autores madrilenos
- José Ramón Fernández, Luis Miguel González
Cruz, Raúl Hernández, Juan Mayorga – que fundam o colectivo
"El Astillero" em 1994. O encenador Guillermo Heras participa igualmente
nesta aventura Mayorga começa a dedicar-se à escrita
teatral em 1989, ano em que é nomeado para o prémio
Marqués de Bradomín por Siete hombre buenos.
Estreou ou publicou os seguintes textos para teatro:- Siete hombres
Buenos (1989)-. Más ceniza (1992), El traductor
de Blumemberg (1994-2000),
Concierto fatal de la viuda Kolakowski (1994), El hombre
de oro (1996), El sueño de Ginebra (1996), El
jardín
quemado. (1998), La mala imagen (1997), Legión (1998),
La piel (1998), Amarillo (1998-2000), El Crack (1998),
Angelus Novus (1999), Cartas de amor a Stalin (1998), La
mujer de mi vida (1999), BRGS (2000), El Gordo y el
Flaco (2001),
La mano izquierda (2001), Una carta de Sarajevo (2001),
Encuentro en Salamanca (2002), La biblioteca del Diablo (2001),
Camino del cielo (2002), El buen
vecino (2002), Sonámbulo (A partir de “Sobre los ángeles”,
de Rafael Alberti) (2003), Animales nocturnos (2003), Tres
anillos (2004). Foi ainda co-autor, com Juan Cavestany, de Alejandro
y Ana e autor de Lo que España
no pudo ver del banquete de la boda de la hija del presidente (2003),
Ultimas Palabras de Copito de Nieve (2004) e Hamelin (2004)
. Traduziu e adaptou A Visita da Velha Senhora de Friedrich
Dürrenmatt
(2000), O Monstro dos jardins de Calderón (2000), A
dama boba de Lope (2002) Nathan, O Sábio, de Lessing (2003).
A sua peça Cartas de Amor a Stalin, em tradução
de José Martins, está editada na Campo das Letras. E O
Tradutor de Blumemberg, em tradução de António Gonçalves
foi editado na Revista "Artistas Unidos".
|