COMIDA
Estreou
a 4 de Setembro de 2006, no Espaço MM Café no Teatro
Maria Matos, com encenação e interpretação
de Gonçalo Waddington, assistência de encenação
de João Miguel Rodrigues, numa produção Os
Crónicos
/ Teatro Maria Matos.
Fala-se
de comer, da falta de comida, da boca que come, da boca que muda
a comer, da boca que muda, calada.
Pedem-me
que viva este momento, o aqui
e o agora, a caminho da hiper
consciência. Mas eu ponho-me a cismar, qual momento
eu cá desconfio que ando é a comer menos do que comia,
que a comida que trazem é cada vez menos,
que até me vão trazendo pratos mais pequenos,
progressivamente mais pequenos,
para que a mancha de comida no prato seja sempre a mesma,
para eu não desconfiar.
Mas haverá um dia, meu filho,
em que eu hei-de mudar,
fecharei a mão num punho,
com o pratinho minúsculo da comida lá dentro, e ponho-o num bolso.
Como às pessoas pequeninas que gostamos delas assim que cabem mas não
cabem,
fiquem lá, fiquem lá onde estão,
no princípio ou no fim do espaço
ou do tempo, que não é bem a mesma coisa
mas vai dar ao mesmo, ficarem aí não bem no princípio ou
no fim
do espaço ou do tempo, igual,
mas a meio-caminho, mais para lá do que para cá
do princípio ou do fim
do tempo, também conhecido como espaço,
nem sequer pele passado um tempo,
mas que tempo?
CASAS
Tem estreia prevista para 24 de Janeiro de 2008, na Sala de Ensaio do Centro
Cultural de Belém, com interpretação de Helena Peixinho,
Joana Henriques, Helena Guerreiro, Teresa Almeida, Bruno Costa, Rita Lima,
Mariana Tchen, Teresa Mata, Catarina Mata, Beatriz Tadeu, Isabel Tadeu,
Rogério Pereira, Eduardo Ribeiro, Amélia Joaquim, Pedro Condee
Inês Machado (Alemã), movimento de Lucília Raimundo,
luz de Pedro Domingos e encenação de António Simão,
numa produção CCB - CPA/ Teatro de Inverno - Teatro a Todos.
CAVE
Sou casa e sofro das costas, tem de ser.
É de esfregar, de esfregar,
como se carregasse a casa aos ombros, ou então
o contrário, é de carregar com este prédio aos ombros
como se andasse o dia todo de gatas
a esfregar, a esfregar, num dia cinzento
daqueles em que a pressão atmosférica pesa.
PORTEIRA
Passo o dia inteiro a lavar a sombra
e a servir o pequeno-almoço da senhora, e o almoço, e o jantar.
Não tenho vida privada,
CAVE
Vida privada tenho eu,
pois, senão vejamos, temos por um lado vida,
vi daqui, vi dali, vi de todos os lados até ter uma visão do que
vi,
e temos privada por outro lado,
privada disto, privada daquilo,
vida privada tenho eu,
privada, no mínimo,
de luz natural,
que as minhas janelas,
ao nível do chão.
REPARTIÇÃO
Tem estreia prevista para 4 de Março de 2008, no Grande Auditório
da Culturgest com interpretação de Ana Brandão, Anabela
Brígida, Bruno Simões, Gonçalo Amorim, Peter Michael, Raquel
Dias, Ricardo Neves e Tiago Viegas, encenação de Bruno Bravo, movimento
de Luca Aprea, cenário de Stephane Alberto, música de Sérgio
Delgado, figrinos de Ana Teresa Castelo, desenho de luz de José Manuel
Rodrigues, numa co-produção Primeiros Sintomas / Culturgest.
REPARTIÇÃO
Ana começa. Acabaram as repartições de finanças.
Ana entra em conflito interno. Acabaram-se as repartições de finanças.
A voz da Ana várias vozes. Vozes de outros. O cúmulo dos outros é o
funcionário da repartição de finanças a quem vamos
declarar os rendimentos. O chefe da repartição está doente.
Ana tem de ir a casa dele. Era o tempo da última repartição
de finanças. Viagem. Leito de morte do chefe da repartição.
Momento amoroso, em que Ana declara os rendimentos ao chefe da repartição
moribundo.
3a
Mas porquê,
uma casa tão tradicional,
tão genuína.
5c
Pois é. Não cumpríamos as exigências higiénico-sanitárias
todas.
Tínhamos uns lavabos deficientes.
3a
Mas uma casa tão autêntica, tão castiça.
5c
Pois é, mas a qualidade não escolhe a quem toca, a qualidade é a
qualidade.
3a
E é o quê, a qualidade?
5
Ah, são muitas páginas, muitas páginas.
3a
Nem sequer podemos beber
uma ginjinha, ou comer uma sandes de presunto
ao balcão?
MIGUEL
CASTRO CALDAS nasceu em 1972 em Lisboa. É licenciado
em Línguas e Literaturas Modernas pela Faculdade de Letras
da Universidade de Lisboa. Escreveu Queres Crescer e Depois Não
Cabes na Banheira (Ambar, 2002), As Sete Ilhas de Lisboa (Ambar,
2004); para os Primeiros Sintomas escreveu A Montanha Também
Quem, O Homem do Pé Direito (AU/Cotovia, 2005), O Homem
da Picareta (AU/Cotovia, 2005), Nunca Terra (Primeiros Sintomas,
2005), É Bom Boiar na Banheira, Comida e E Agora Baixou
o Sol.
Para os Artistas Unidos escreveu Javas para o espectáculo Conferência
de Imprensa e outras Aldrabices (AU/Cotovia, 2005), Levantar a Mesa para a leitura
Mecenas, Mecenasi. Colaborou ainda na dramaturgia de A Fábrica de Nada,
de Judith Herzberg, Lilás de Jon Fosse e Amador de Gerardjan Rijnders.
Traduziu Ali Smith, Harold Pinter, Reinaldo Arenas, Samuel Beckett e Senel
Paz.
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