Acompanhando a estreia do espectáculo "A Fábrica de nada" dirigido
por Jorge Silva Melo, lançamos mais um texto da escritora
neerlandesa Judith Herzberg. É a terceira peça desta autora
que temos ocasião de editar. Depois de " Os casamentos de Lea"
e de "O caracal" que foi produzida e encenada por Alberto Seixas
Santos
em
2003 com representação de Sofia Aparício, editamos
agora este texto para crianças.
Uma
fábrica
de cinzeiros fecha, e os trabalhadores, não querendo ficar
desempregados, resolvem continuar a trabalhar numa nova produção:
nada. À volta de nada organiza-se tudo, desde as escolha do
gerente da fábrica, aos furtos dos produtos e aos tribunais,
com muita música cantada e tocada a mostrar por que caminhos
segue esta história.
Estes operários que preferem fazer nada a nada fazer inscrevem-se
mais na linha do saber ver quando se vê do Alberto Caeiro e
do fazer não fazendo do Lau Tsu, do que no preferia não
o fazer do Bartleby. Em lugar da angústia do desaparecimento
das coisas e dos seres que a palavra vazio sugere, o vazio que o
patrão deixa ao fechar a fábrica permite o vazio do
espaço côncavo em que tudo pode acontecer precisamente
porque está vazio. Permite a boa projecção do
som. E os músicos, atrás dos actores, seguem atentamente
o que se vai passando com as vozes. Estes operários dizem-nos
assim, a cantar: a fábrica fecha, não faz mal, nós
continuamos na mesma, não nos vão ver aos molhos nos
noticiários a protestar à porta da fábrica,
nem vamos calados para casa perder a nossa dignidade no sofá.
Não precisamos de mais nada do que estarmos uns com os outros
porque força como esta só existe outra, que também
temos: a música.
Judith Herzberg
Nasceu em Amsterdão em 1934. Começou a publicar poesia
no início dos anos 60. Nos anos 70 começou a escrever para
teatro. É também autora de ensaios, argumentos cinematográficos,
peças para televisão e várias traduções.
Recebeu vários prémios e tem peças traduzidas em
alemão, inglês, francês e italiano. Disse uma vez:
“Evito afirmações moralistas nas minhas peças. Tento
que o público possa experimentar a mesma confusão que eu,
quando observo a realidade.” A sua obra poética iniciou-se com Zeepost
(1963), a que se seguiram Beemdgras (1968), Vliegen
(1970), Strijklicht (1971), 27 Liedesliedjes (1971),
uma adaptação do Cântico
dos Cânticos, Botshol (1981), Dagrest (1984), Twintig
gedichten (1984), Dat Engels geen au heeft (1985), Zoals
(1987), Doen en laten (1994), Wat zij wilde schilderen
(1996), Landschap (1998), Bijvangst (1999), Staalkaart
(2000), 10 mooiste gedichten (2002), Soms vaak (2004). Uma
breve antologia sua foi publicada na Revista "DiVersos" nº 7.
No teatro podem destacar-se: De deur stond open (1972), Het
is geen hond (1973), Dat het 's ochtends ochtend wordt (1975), Leedvermaak
[Os Casamentos de Lea] (1982), En/of (1985), Merg
(1986), De kleine zeemeermin (1986), De Caracal (1988), Kras (1989), Een
goed hoofd (1991), Rijgdraad (1995), De Nietsfabriek
(1997), Een golem (1998), Lieve Arthur (2000), Simon
(2002) e Vielleicht Reisen (2004).
Os Casamentos de Lea e O Caracal encontram-se publicados
no nº 3
da Revista Artistas Unidos em traduções, respectivamente
de Lut Caenen e Lieve van Loocke e de Lut Caenen e Filipe Ferrer. O primeiro
texto foi apresentado durante as Leituras de Teatro Neerlandês,
em 2000. Em 2003, Alberto Seixas Santos dirigiu O Caracal no
Teatro Taborda
undo não fosse assim,
a partir de motivos do famoso contista americano Damon Runyon.
Um dia Sua Majestade a Rainha, corista, assim chamada por só se deixar
acompanhar por tipos ricos, é empurrada escadas abaixo ficando com as
pernas paralisadas. E há um tipo, Little Pinks, empregado de mesa e grande
admirador da Rainha, que passa a tomar conta dela. No inverno, em Nova Iorque,
no final de 1932, estão os dois na miséria. Ela trata-o mal por
ele não ter tusto e exige uma viagem até Miami onde o tempo é mais
quente e há homens ricos para casar. Little Pinks satisfaz o capricho,
empurrando a cadeira de rodas de Nova Iorque até Miami. 1300 milhas. A
mesma viagem que Rusty, Johnny Brannigan e Jackie O’Heart, irão fazer,
mas de comboio, depois de contratados por um traficante de cerveja para eliminar
a concorrência de outro traficante de cerveja.
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