"O Homem do Pé Direito"
Ana está no quarto e o seu discurso é sobre o tempo que
ainda não veio, de quando for crescida, ou então do tempo
que passou, de quando era criança. Que idade tem ela? Mas as casas,
os quartos, ficam, apesar das pessoas passarem, e este quarto, de uma
vila operária de Lisboa, é o quarto insalubre de operários
e é o quarto alugado a alta renda cem anos depois no tempo em
que já não há operários. No escuro do quarto
de qualquer época os fantasmas e as coisas ganham vida: a roupa
amontoada na cadeira que parece um monstro (mas o monstro é monstro
ou não passa de roupa amontoada?), os poetas que entram pela porta
dentro, (entram para o quarto ou entram para a Fnac?) e os ladrões,
que procuram não se sabe que tesouro. Só uma coisa sabemos
certa, que é a linguagem. A acção dá-se a
partir do que se diz, a partir do texto. Tudo o que é dito passa
a ter existência palpável. Dizer ó papão vai-te
embora de cima desse telhado, é acender uma lanterna que nos permite
ver as paredes do buraco onde estamos a cair. Impossível determinar
a medida do pé direito.
Miguel Castro Caldas
Vem uma pessoa cansada
de trabalhar.
Vem uma pessoa
cansada
de trabalhar
a enfiar-se no metro como se fosse uma
con-
serva
de atum,
uma com-
versa
de sardinhas, ou de anchovas
lá se consegue a custo sair na paragem certa
encontrar o túnel certo para vir para casa,
e ainda apanho com merda na cabeça.
Eu não mereço isto.
"O Homem do Pé Direito"
foi escrito para a companhia Primeiros Sintomas que produziu a peça
em 2003, na Associação
Abril em Maio.
"O Homem da Picareta"
Na
cave, o homem da picareta escava uma parede para ganhar espaço
na sala. A sua mulher procura um escadote para poder ir à janela.
Sem querer, o homem da picareta fura os canos e tem de chamar um canalizador.
Mas na verdade
o que se está a passar é um terramoto que o canalizador tem
de consertar.
Na avaliação fatalista do canalizador entra o discurso d’ O Poema
sobre a desgraça de Lisboa de Voltaire. O homem da picareta tece considerações
dignas de um Kant. O ajudante do canalizador percorre uma viagem por dentro
de um terramoto. A mulher espera que se resolva um problema de infiltração.
Aqui ou ali cita-se:
- O Poema sobre a desgraça de Lisboa de Voltaire;
- ensaios a propósito do terramoto de 1755 em lisboa de Kant;
- o relato do que aconteceu ao Sr. Thomas Chase, em Lisboa, no grande terramoto,
escrito por ele próprio;
- a carta dum mercador inglês, residente em Lisboa à data do terramoto;
- e uma frase apenas do Fernão Mendes Pinto que não tem nada
a ver com isto.
Para tanto espaço,
Para espaço, picareta,
Parede abaixo
Não há vizinhos ao nosso lado
Estamos na cave, estamos debaixo.
Abro espaço
"O Homem da Picareta" foi
escrito para a companhia Primeiros Sintomas que produziu a peça
em 2004, no espaço Karnart.
Biografia
Miguel Castro
Caldas
Nasceu em Lisboa em 1972.
Licenciou-se em Línguas e Literaturas Modernas na Faculdade
de Letras de Lisboa. Publicou textos no jornal da Associação
de Estudantes da Faculdade de Letras Os Fazedores de Letras entre
1998 e 2001. Tem publicadas as narrativas "Queres Crescer" e
"Depois não
Cabes na Banheira" (2002) e "As Sete Ilhas de Lisboa" (2004).
Para teatro escreveu cinco peças para a companhia Primeiros
Sintomas: "A Montanha" "Também Quem" e "O Homem
do Pé Direito",
ambas em 2003, "O Homem da Picareta" e "Conto de Natal" – "Variações"
de Dickens, ambas em 2004 e "Nunca Terra", em 2005.
Nos Artistas Unidos, em 2005, participou na escrita de Conferência
de Imprensa e Outras Aldrabices – número especial editado
nesta colecção – e na versão portuguesa de A
Fábrica
de Nada de Judith Herzberg –livrinho nº 13
também
desta colecção.
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