LIVROS

livrinhos de teatro - Artistas Unidos

[VOLTAR]

O Homem do pé direito / O Homem da picareta

ISBN:972-8972-00-8
Miguel Castro Caldas
88 pp.

€7,00

"O Homem do Pé Direito"


Ana está no quarto e o seu discurso é sobre o tempo que ainda não veio, de quando for crescida, ou então do tempo que passou, de quando era criança. Que idade tem ela? Mas as casas, os quartos, ficam, apesar das pessoas passarem, e este quarto, de uma vila operária de Lisboa, é o quarto insalubre de operários e é o quarto alugado a alta renda cem anos depois no tempo em que já não há operários. No escuro do quarto de qualquer época os fantasmas e as coisas ganham vida: a roupa amontoada na cadeira que parece um monstro (mas o monstro é monstro ou não passa de roupa amontoada?), os poetas que entram pela porta dentro, (entram para o quarto ou entram para a Fnac?) e os ladrões, que procuram não se sabe que tesouro. Só uma coisa sabemos certa, que é a linguagem. A acção dá-se a partir do que se diz, a partir do texto. Tudo o que é dito passa a ter existência palpável. Dizer ó papão vai-te embora de cima desse telhado, é acender uma lanterna que nos permite ver as paredes do buraco onde estamos a cair. Impossível determinar a medida do pé direito.

Miguel Castro Caldas


Vem uma pessoa cansada de trabalhar.
Vem uma pessoa
cansada
de trabalhar
a enfiar-se no metro como se fosse uma
con-
serva
de atum,
uma com-
versa
de sardinhas, ou de anchovas
lá se consegue a custo sair na paragem certa
encontrar o túnel certo para vir para casa,
e ainda apanho com merda na cabeça.
Eu não mereço isto.

"O Homem do Pé Direito" foi escrito para a companhia Primeiros Sintomas que produziu a peça em 2003, na Associação Abril em Maio.

 

"O Homem da Picareta"

Na cave, o homem da picareta escava uma parede para ganhar espaço na sala. A sua mulher procura um escadote para poder ir à janela. Sem querer, o homem da picareta fura os canos e tem de chamar um canalizador. Mas na verdade o que se está a passar é um terramoto que o canalizador tem de consertar.
Na avaliação fatalista do canalizador entra o discurso d’ O Poema sobre a desgraça de Lisboa de Voltaire. O homem da picareta tece considerações dignas de um Kant. O ajudante do canalizador percorre uma viagem por dentro de um terramoto. A mulher espera que se resolva um problema de infiltração.
Aqui ou ali cita-se:
- O Poema sobre a desgraça de Lisboa de Voltaire;
- ensaios a propósito do terramoto de 1755 em lisboa de Kant;
- o relato do que aconteceu ao Sr. Thomas Chase, em Lisboa, no grande terramoto, escrito por ele próprio;
- a carta dum mercador inglês, residente em Lisboa à data do terramoto;
- e uma frase apenas do Fernão Mendes Pinto que não tem nada a ver com isto.

Para tanto espaço,
Para espaço, picareta,
Parede abaixo
Não há vizinhos ao nosso lado
Estamos na cave, estamos debaixo.
Abro espaço

"O Homem da Picareta" foi escrito para a companhia Primeiros Sintomas que produziu a peça em 2004, no espaço Karnart.

Biografia

Miguel Castro Caldas
Nasceu em Lisboa em 1972.
Licenciou-se em Línguas e Literaturas Modernas na Faculdade de Letras de Lisboa. Publicou textos no jornal da Associação de Estudantes da Faculdade de Letras Os Fazedores de Letras entre 1998 e 2001. Tem publicadas as narrativas "Queres Crescer" e "Depois não Cabes na Banheira" (2002) e "As Sete Ilhas de Lisboa" (2004).

Para teatro escreveu cinco peças para a companhia Primeiros Sintomas: "A Montanha" "Também Quem" e "O Homem do Pé Direito", ambas em 2003, "O Homem da Picareta" e "Conto de Natal" – "Variações" de Dickens, ambas em 2004 e "Nunca Terra", em 2005.
Nos Artistas Unidos, em 2005, participou na escrita de Conferência de Imprensa e Outras Aldrabices – número especial editado nesta colecção – e na versão portuguesa de A Fábrica de Nada de Judith Herzberg –livrinho nº 13 também desta colecção.

.
LIVROS
.


© 2004 Livros Cotovia. Todos os direitos reservados.
Web-design Copis