Inverno estreeou a 17 de Fevereiro no Teatro Taborda com encenação
de Jorge Silva Melo com interpretações de Pedro Lima e
Sylvie Rocha.
Uma mulher, um homem, um
banco na rua, um quarto de hotel: duas pessoas que se encontram, ela é a estrangeira, está sozinha,
ele só aqui é estrangeiro, tem uma mulher e duas crianças
numa outra cidade. Ela deseja-o, mas ele não é capaz de
se separar da família, depois ele deseja-a a ela, e ela por sua
vez reage com reservas. Trata-se de um encontro com os momentos que escaparam,
a par com uma linguagem desamparada que a maior parte das vezes já só se
perde em pequenas palavras.
Resta um silêncio entre as pessoas, silêncio que deixa
adivinhar a necessidade de amor que os anima a ambos? uma necessidade
não satisfeita. É uma
grande peça sobre o amor que Fosse obsessivamente exorciza com a sua
linguagem restrita e altamente musical, expondo desta forma, mais uma vez,
a relação
arquetípica entre duas pessoas. No final há apenas um abraço
sem futuro entre duas pessoas que se poderiam ter amado.
Inverno,
escrita em 2000, é a peça mais minimalista de Jon Fosse, autor
norueguês
de quem os Artistas Unidos já estrearam várias peças.
Biografia:
Jon Fosse nasceu
em 1959 em Haugesund, no Oeste da Noruega. Vive há 20
anos em Bergen: Escreve em novo norueguês, língua obrigatória
nas escolas mas que só é falada nessa região.
Estreou-se na literatura em 1983, tendo publicado cerca de quinze livros
antes de chegar ao teatro: romances, poesia, ensaio, novelas e livros
para crianças. A sua primeira obra para teatro foi escrita em
1994. Desde então já escreveu mais de quinze peças,
que têm sido representadas na Noruega e no estrangeiro, dirigidas
por encenadores como Gunnel Lindblom, Claude Règy, Jacques Lassale,
Thomas Ostermeier, Barbara Frey, Katie Mitchell. Jon Fosse esteve em
Portugal em Março de 2000, aquando das estreia de Vai Vir Alguém
n’a Capital com encenação de Solveig Nordlund e interpretação
de Isabel Muñoz Cardoso, Diogo Dória e Paulo Claro e
voltou a 11 de Março de 2001 para assistir a Sonho de Outono,
com encenação também de Solveig Nordlund e interpretação
de Gracinda Nave, Marco Delgado, Camacho Costa, Lucinda Loureiro e
Sylvie Rocha. A Noite Canta os seus Cantos estreou em Portugal a 26
de Fevereiro de 2004, no Teatro Taborda, com encenação
de João Fiadeiro e interpretação de Joana Bárcia,
António Simão, Isabel Muñoz Cardoso, António Évora
e Américo Silva numa produção Artistas Unidos
/ Re.Al. Registos das suas intervenções, quando esteve
n’a Capital, encontram-se publicadas nos números 2 e 4 da revista
Artistas Unidos.
Escreveu as seguintes peças: E Nunca nos Separarão (1994),
O Nome (1995), Vai Vir Alguém (1996), A
Criança (1997),
Mãe e Criança (1997), O Filho (1997), A
Noite Canta os seus Cantos (1998), Um Dia de Verão (1998), Sonho
de Outono (1999),
Quando a Luz Baixa e Fica Escuro (1999), Dorme, Meu Menino (1999), Visitas (2000), O
Guitarrista (2000), Inverno (2000), Variações
Sobre a Morte (2001), Rapariga no Sofá (2002), Lilás (2002),
Os Cães Mortos (2003).
Em Portugal foram apresentadas
outras peças de Jon Fosse: Vai Vir Alguém (editado na
Revista Artistas Unidos nº 2); Sonho de Outono (editado na Campo
das Letras em conjunto com O Nome); A Noite Canta os Seus Cantos (editado
nos Livrinhos de Teatro nº 4)
Crítica: Logo nas primeiras
páginas
de uma peça de Fosse o texto prendeu a minha atenção:
aqui está alguém que tem uma voz extremamente pessoal,
um dramaturgo especial. Tornou-se logo evidente e não havia
nenhuma dúvida. Se a memória não me falha tive
a mesma sensação há quarenta anos quando li uma
peça do então desconhecido Harold Pinter.
Louis Muinzer
O seu ritmo é repetitivo e obsessivo:
os mesmos pensamentos as mesmas sensações repetem-se
obsessivamente, revelando esquemas escondidos de acção.
O único livro escrito até agora sobre a escrita de Jon
Fosse: ”Replacing Happiness with a Comma (1996) de Espen Stueland,
fala disso e de como as pausas no que é dito e escrito criam
um sentido além daquilo que é concretamente dito.
Michel Cournot
Das suas peças emana uma luz muito
particular que lembra a dos pintores escandinavos, Munch, por exemplo.
Uma luz branca como acontece nos eclipses, mas uma luz que desenha
com nitidez os contornos dos objectos e das personagens. Contradição?
Não. Porque a ausência de luz corresponde a uma outra
ausência: o número das personagens é sempre pequeno:
são dois, três, quando muito quatro. Aumenta a concentração,
agudiza-se a percepção porque um terceiro fenómeno
aparece: e é a dimensão do tempo. O tempo parece ter
parado no universo de Fosse. A linguagem simples e repetitiva revela
a solidão profunda dos homens. A ausência de luz, o isolamento
no espaço e o tempo quieto transformam as peças de Jon
Fosse em instantes de grande recolhimento e essa é a finalidade
confessa do autor "criar momentos em que um anjo passa".
Terje Sinding
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