O Homossexual ou a Dificuldade em Exprimir-se
A Senhora Simpson (“Madre”), e a filha dela, Irina, estão desterradas na Sibéria. Vivem no meio das estepes rodeadas de neve e lobos. Há também a Senhora Garbo, professora de piano de Irina. Todas elas, em tempos, mudaram de sexo. Irina está grávida – de quem, não sabe. Talvez da professora de piano, talvez até da própria mãe ou de um qualquer homem com quem se encontra nas tabernas. A Senhora Garbo alega amar Irina, quer levá-la consigo para a China contra a vontade da Senhora Simpson. A discussão entre as duas é acompanhada pela auto-destruição de Irina, que aborta o bebé, parte uma perna e corta a sua própria língua.
Madre Irina, recebi uma carta do tio Pierre. Está muito preocupado contigo. Não percebe porque é que abandonaste as aulas de piano. A senhora Garbo devolveu-lhe cinquenta kopecks informando-o que há mais de dois meses que não aparecias. Irina, o que é que tu fazes entre as duas e as cinco horas?
Irina Passeio.
Madre Sozinha?
Irina Sozinha.
Loretta Strong
Loretta Strong é uma astronauta que viaja sozinha numa cápsula, com a missão de semear o seu ouro em Alfa de Órion. Durante a viagem fala ao telefone com as vozes do universo, entra em guerra com plutonianos e Homens Macacos, enquanto faz amor com ratos, morcegos, fantasmas de astrofísicos bombardeados, com barras de ouro e até com o frigorífico. Num espaço de segundos, dá à luz morcegos de ouro com olhos de rubi. Vão explodindo os seres à sua volta, até ela própria começar a ser devorada por vermes e navegar mergulhada num mar de sangue.
Loretta Strong
Está aí fora, Linda?
Está a ouvir-me?
Grite mais alto!
Mas eu estou a gritar!
Sou eu, Linda!
Está a ouvir-me?
Sou eu!
Está? Está? Está lá? Está?
Aqui está a chover, mas eu tenho goteiras!
Há sangue a entrar por todo o lado!
Já não tenho esfregão, só tenho a sua pele!
Olá! Olá!
Espere por mim!
Estou a sair!
A Torre de la Défense
Alguns marginais parisienses, num bairro elitista de Paris, juntam-se para celebrar a passagem de ano. São eles um árabe (Ahmed), um travesti (Micheline), uma jovem mãe encharcada em ácidos (Daphnée) e um casal homossexual, Jean e Luc, em crise conjugal. No meio de desavenças amorosas, histerismo, tentativas de suicídio e a preparação de um jantar feito de cobra e ratazana, Daphnée, que já não sabe de que mundo é, tenta activamente recuperar a sua filha que está com o pai americano, John. Mas afinal a criança está, há muito, dentro de uma mala, morta pela própria mãe.
JEAN Devia ter-me suicidado aos dezassete anos. Agora é tarde de mais.
LUC Porquê aos dezassete anos?
JEAN Porque aos dezassete anos tinha um revólver que o meu pai me deu.
LUC O que não falta são formas de nos suicidarmos. Podes sempre experimentar uma overdose.
JEAN Ah, não, para mim, suicídio, ou é com um revólver ou com coisa nenhuma.
LUC Porquê com um revólver?
JEAN Porque aos dezassete anos tive um revólver. E já não tenho dezassete anos.
LUC Mas afinal, que importância tem isso?
JEAN Nenhuma, estava a falar por falar.
LUC Então cala-te.
O Frigorífico
Um só actor representa várias personagens, sendo a protagonista L., uma mulher escandalizada por lhe terem posto um frigorífico no meio da sala. Fala ao telefone e recebe visitas: ela é, ao mesmo tempo, uma Cigana que vem fotografar o frigorífico, a sua psicóloga (Doutora Freud), a criada Goliasta, a sua própria Mãe, um Detective que investiga o paradeiro do frigorífico, um Cão, um Rato e também as vozes que saem do telefone e do relógio de sala. L. vive no seu mundo inventado no qual é famosa e escreve as suas memórias. Mas tudo não passa de uma encenação: “Isto aqui é um teatro, senhor! Como? Não é um teatro? E é a mim que diz isso? Tenho o público à minha frente!” – diz a criada Goliasta.
Goliasta, traga-me dois iogurtes e um brioche bem grande!
Vê-se logo que não és um rato como os outros!
Tens um olhar franco
Sim, é verdade, não és o primeiro rato na minha vida, sabes: apanhei muitos na sarjeta.
Mas eram amigos de passagem.
Nunca fiquei muito tempo com um rato.
Não é que eu seja racista, longe disso!
Mas nunca conheci um rato que gostasse de mim a sério, quer dizer, por aquilo que sou.
Olha, serve-te, prova um bocado desta chicória.
Mas contigo é diferente, percebes?
Não atires os legumes pelo ar, isso não se faz!
Sou rica!
Sou avarenta, isso rejuvenesce-me.
Gasto fortunas em vestidos e em cirurgias plásticas!
Mudo de toilette vinte e quatro vezes por dia.
E de cada vez rejuvenesço uma hora.
COPI
Raúl Damonte Botana, conhecido pelo pseudónimo Copi, nasceu na Argentina, em Buenos Aires, no dia 20 de Novembro de 1939. Desenvolveu a maior parte da sua carreira em França, Paris, onde morreu no dia 14 de Dezembro de 1987. Cresceu em Montevideo. Tanto o seu avô materno, Natalio Félix Botana, como o seu pai, Raúl Damonte Taborda, foram jornalistas. O seu pai, anti-peronista radical, foi director do jornal Tribuna Popular. Copi mostrou desde cedo talento para o desenho e contribuiu com caricaturas para aquele jornal, e para a revista satírica Tia Vicenta, desde a sua adolescência. As actividades políticas do seu pai forçaram a família a exilar-se no Uruguai, no Haiti e, mais tarde, nos EUA, em Nova Iorque. Copi emigrou sozinho para Paris em 1963. Começou a trabalhar para o Nouvel Observateur onde os seus desenhos e humor agudo o tornaram conhecido; foi o cartoon La Femme Assise que o celebrizou mundialemnet e que originou o pseudónimo com que viria a assinar (copi é um argentinismo para galinha). Foi membro do Tse, uma associação de artistas franco-argentinos com os quais, em 1969, estreou Eva Perón. Outras peças por si escritas incluem títulos como Le bal des folles, La journée d’une rêveuse, Une visite inopportune. Copi também colaborou com o grupo Pánico, que incluía nomes como Fernando Arrabal, Roland Topor e Alejandro Jodorowsky. Morreu aos 48 anos de idade, deixando escritos oito romances, dezasseis peças de teatro e oito livros de banda desenhada.
Em Portugal, ficou famosa a proibição de Eva Perón em 1975, com encenação de Filipe La Féria e Mário Viegas na protagonista; o encenador só faria o texto em 1984, com Teresa Roby, na Casa da Comédia (o texto dessa versão foi editado pela & etc). Produziram-se ainda as seguintes peças: As Quatro Gémeas (enc. Victor Garcia, Empresa Sérgio de Azevedo, 1977), A Noite da Senhora Luciana (enc. Fernanda Lapa, Os Comediantes, 1986), O Frigorífico (enc. João Paulo Costa, Teatro Plástico, 1995), O Dia de uma Sonhadora (enc. Carlos Avilez, Teatro Experimental de Cascais, 1996), Uma Visita Inoportuna (dir. Castro Guedes, Seiva Trupe, 1999), A Dificuldade em se Exprimir/O Homossexual ou a Dificuldade em Exprimir-se (enc. Luís Castro, KARNART, 2005 e 2007) e novamente As Quatro Gémeas (dir. Joana Brandão, Teatro Taborda, 2006).
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