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livrinhos de teatro - Artistas Unidos

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O rapaz da última fila / Palavra de cão / Bucha e estica

ISBN: 978-972-8972-16-5
Mayorga, Juan
176 pp.

€7,00

Tradução de António Gonçalves

O RAPAZ DA ÚLTIMA FILA


“É uma peça sobre a escola e a família, onde se encontram duas personagens, duas aves raras. Uma é um professor de literatura, de liceu, Germano, que terá uns 50 anos. Escolheu esta profissão porque pensava que lhe ia permitir viver em contacto com os grandes livros, e transmitir o seu amor por eles. O que acontece é que, no final da sua carreira, é um homem que não foi capaz de entregar a sua experiência, é um homem sem herdeiros – como tantos professores espanhóis dessa idade, sobretudo do lado das humanísticas, literatura, história, filosofia, sentem uma enorme solidão de cada vez que entram na aula, que não conhecem aqueles adolescentes e também não são conhecidos por eles – nem reconhecidos. É um homem-livro, para quem a pergunta fundamental para um ser humano é: Tolstoi ou Dostoievski? Este Germano, um dia, está a tentar explicar a noção de ponto de vista aos alunos e, para isso, pede-lhes que escrevam sobre o que fizeram no último fim-de-semana. E entre redacções horríveis descobre uma, inesperada pelo seu conteúdo e forma, que é a da outra personagem especial, o rapaz da última fila. Aí produz-se um encontro complexo, cheio de desencontros. Esta peça tem alguma coisa a ver com a minha própria experiência – eu fui professor do secundário, de rapazes, e continuo a sê-lo, sou professor de liceu em licença, é como a ordem sacerdotal, é-se para a vida. Uma das coisas que descobri quando era professor é que ninguém escolhe a última fila em vão. Nem sempre um rapaz a escolhe por ser o malandro, a última fila é aquela de onde se vê todos os outros sem se ser visto – é a fila do escritor, do artista.

Juan Mayorga in Artistas Unidos Revista nº 19

 

Juana A literatura não ensina nada.
Germán Ah, não?
Juana “O Escrivão Bartleby”. O tarado que matou o John Lennon levava-o no bolso. O que é que a literatura lhe ensinou?
Germán O assassino do Lennon levava o “À Espera no Centeio”.
Juana Não interessa. O que interessa é que a literatura não ensina nada. Não nos torna melhores.

 

PALAVRA DE CÃO


“É uma peça que escrevi a partir do maravilhoso Colóquio de Cães, de Cervantes. Em Cervantes, encontramos a trama da novela picaresca, em que uma personagem relata à outra a sucessão de trabalhos que teve, de casas onde viveu. E Cervantes dá uma explicação até certo ponto mágica da razão por que os cães falam: havia uma bruxa que queria castigar outra, e lhe transformou em cães os filhos. Tentei dar a volta à questão, e transformei-a na espinha dorsal da peça. Se, no Colóquio cervantino, há um cão que conta a sua vida a outro, na minha peça há o encontro de dois cães que descobrem que falam. Ou seja, havia um cão que tinha um segredo, pensava que só ele falava como os seres humanos, e encontra outro que também o faz. E, juntos, querem descobrir a causa dessa capacidade anormal, monstruosa. De maneira que, pela primeira vez, Berganza (que é quem fundamentalmente detém apalavra no texto) está a contar a sua vida a alguém, a Cipião: está a descobrir a sua identidade, porque a identidade é fundamentalmente a costura que fazemos das nossas experiências. Na minha versão, Berganza pergunta-se: porque falo? E, em vez da ordem cronológica que Cervantes utiliza, ele vai em sentido inverso, da actualidade para trás, procurando o momento misterioso em que se pôde produzir esse dom da palavra. Finalmente, descobre que é um homem animalizado, como o é também Cipião, e que na origem da sua animalidade está a violência que os outros seres humanos exerceram sobre eles.”

Juan Mayorga in Artistas Unidos Revista nº 19

 

Cipião Mas que estranha me pareceu esta última recordação, Berganza.
Berganza Também a mim. Não consigo assimilar isso de um homem me ensinar a fazer de cão.
Cipião Tens que continuar a puxar pela memória, Berganza, para desfazer o enigma.
Berganza Cada vez me mete mais medo a memória, Cipião. Põe-me em pânico continuar a entrar no passado.
Cipião Não tenhas medo, amigo, que eu acompanho-te.

 

BUCHA E ESTICA


Feroz combate entre Stan Laurel e Oliver Hardy, mundialmente conhecidos como Bucha e Estica. Um par extraordinário que entra em crise. E, na crise, parece-se com qualquer outro par/casal do mundo.
Juan Mayorga resgata este par para o converter num espelho que reflecte as relações e conflitos, os amores e desamores dos casais actuais em alguns dos seus aspectos mais ternos e miseráveis, como metáfora do matrimónio.

 “O humor, elemento que tinha relevância escassa nos meus primeiros trabalhos, ganhou peso nos trabalhos mais recentes, até se converter num elemento fundamental no trabalho Cartas de Amor a Staline. Parece-me natural que a obra seguinte a este texto tenha no seu centro o factor humorístico. Não sei se Bucha e Estica pode ser considerada uma comédia. Contudo pretende fazer rir. Bem como explorar linguagens onde a minha escrita ainda não se tinha aventurado – o âmbito do verbal, a linguagem do gesto, a fisicalidade do actor. Sem renunciar, claro, à palavra, mas colocando-a em permanente tensão com o corpo que a diz. Bucha e Estica deve muito à convenção dos palhaços, à artificialidade do cinema mudo e às descobertas do teatro gestual.”

Juan Mayorga

Estica Tivemos sempre problemas com a balança.
Pausa.
As pessoas dão muita importância ao peso. A primeira coisa que fazem é pôr-nos numa balança. “Dois e novecentos”: foi a primeira coisa que o meu pai soube de mim. Nada de “Tristonho”, ou “Pusilânime”, ou “Trapalhão”. “Dois e novecentos.”
Bucha O meu velho, a mesma coisa. “Três e cem.” Nada de “Optimista”, “Empreendedor”, “Coitado”. “Três e cem.” Tivemos sempre problemas com a balança, desde o princípio.

 


JUAN MAYORGA nasceu em Madrid em 1965. Em 1988 licenciou-se em filosofia e em matemática. Prosseguiu estudos em Münster, Berlim e Paris. Em 1997, douturou-se em filosofia. Ensinou matemática em Madrid e em Alcalá de Henares. É professor de dramaturgia e de filosofia na Real Escuela Superior de Arte Dramático de Madrid. É membro fundador do colectivo teatral “El Astillero”. O seu trabalho filosófico mais importante é Revolución conservadora y coservación revolucionaria. Politica y memoria en Walter Benjamim.
Éautor, entre outros, dos textos teatrais: Siete Hombres Buenos, Más Ceniza, O Tradutor de Blumemberg, El Sueño de Ginebra, O Jardim Queimado, Cartas de Amor a Staline, Caminho do Céu, Animais Nocturnos, Últimas Palabras de Copito de Nieve e Hamelin. Em 2008, estreou La Tortuga de Darwin e La Paz Perpetua. A sua obra está traduzida em árabe, francês, grego, inglês, italiano, português, romeno, norueguês, polaco, romeno e servo-croata. E foi produzida na Argentina, Chile, Costa Rica, Croácia, Espanha, EUA, França, Itália, Noruega, Reino Unido, Ucrânia e Venezuela.
Os Artistas Unidos estrearam o seu sketch Departamento de Justiça no espectáculo Conferência de Imprensa e Outras Aldrabices (2005, no TMDM) e  Hamelin (2007, no Convento das Mónicas). E em 2008, Últimas Palavras do Gorila Albino. (Centro Cultural Vila Flor, Guimarães)
Em 2007, foi-lhe atribuído o Prémio Nacional de Teatro.


Do mesmo autor nesta colecção:
Caminho do Céu, O Jardim Queimado e Animais Nocturnos (nº 12),
Conferência de Imprensa e Outras Aldrabices (número especial)
Hamelin (nº 20).

Na Artistas Unidos Revista:
O Tradutor de Blumemberg (Revista nº10)

Noutros editores:
Cartas de Amor a Staline (Campo das Letras)
Últimas Palavras do Gorila Albino (Revista Intervalo nº3)

 

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