T1
Um quarto, uma rapariga, três rapazes. Quando foi? Quem se perdeu?
Porquê? Tudo se passa num T1, entre rapazes e raparigas. Houve
umas cervejas. Ou foi só uma cantiga do verão que acabou?
Quis uma peça que contasse a história
de um cenário que começa com uma forma e acaba com outra,
mas cuja mudança não fosse dada a ver, antes fosse sugerida.
Assim contém o palco o fim já no princípio. Se
nos distanciarmos, apercebemo-nos da ilusão, se nos mantivermos
fiéis à ficção, acreditamos. As personagens
apareceram mais tarde. São quatro, ouvem a música que
me ajudou a escrever, música rápida, como a história.
Filhas do cenário, cresceram nos apartamentos que vemos, nunca
de lá saíram, e apesar disso, parece-me, podiam ser
nossos vizinhos.
José Maria Vieira Mendes
Se o mundo não fosse assim,
a partir de motivos do famoso contista americano Damon Runyon.
Um dia Sua Majestade a Rainha, corista, assim chamada por só se deixar
acompanhar por tipos ricos, é empurrada escadas abaixo ficando com as
pernas paralisadas. E há um tipo, Little Pinks, empregado de mesa e grande
admirador da Rainha, que passa a tomar conta dela. No inverno, em Nova Iorque,
no final de 1932, estão os dois na miséria. Ela trata-o mal por
ele não ter tusto e exige uma viagem até Miami onde o tempo é mais
quente e há homens ricos para casar. Little Pinks satisfaz o capricho,
empurrando a cadeira de rodas de Nova Iorque até Miami. 1300 milhas. A
mesma viagem que Rusty, Johnny Brannigan e Jackie O’Heart, irão fazer,
mas de comboio, depois de contratados por um traficante de cerveja para eliminar
a concorrência de outro traficante de cerveja.
Damon Runyon nasceu em
1884 no estado de Kansas. Começou a escrever para os jornais
locais desde bem cedo e aos 14 anos alistou-se como voluntário
na guerra hispano-americana e serviu nas Filipinas. Regressou no ano
de 1900 e trabalhou para numerosos
jornais em diversas cidades até se instalar como jornalista
desportivo no New York American em 1911. Foi correspondente de guerra
durante a Primeira Guerra para os jornais do magnata Hearst, para quem
continuou a trabalhar como colunista após a guerra. As histórias
de Runyon evocam toda a população heterogénea
da Broadway — gangsters, contrabandistas, coristas, boxeurs — empregando
uma linguagem muito particular, mistura de preciosismo e calão.
Muitas das suas histórias foram adaptadas para o cinema (nomeadamente
por Frank Capra que filmou duas vezes o seu "Milionária
por Um Dia") e teatro, destacando-se o grande sucesso nos palcos do
musical "Guys and Dolls", filmado depois por Mankiewicz ("Eles e Elas").
Biografia:
José Maria Vieira Mendes escreveu Dois
Homens,
Morrer, Crime e Castigo, Lá Ao Fundo o Rio e Chão. Traduziu À Espera
de Godot de Samuel Beckett, três peças curtas de Duncan
McLean (com Clara Riso), Vai Vir Alguém de Jon Fosse (com Solveig
Nordlund), Comemoração de Harold Pinter e Filoctetes de Heiner Müller. É um dos responsáveis pela Revista
Artistas Unidos e pela edição do Teatro de Bertolt Brecht
na Cotovia. Frequentou, em 2000, a International Residency do Royal
Court Theatre de Londres. Recebeu em 2000 o prémio Acarte da
Gulbenkian assim como o prémio José Ribeiro da Fonte
do IPAE.
Outros livros do autor publicados por Livros Cotovia: Teatro, A minha mulher / Onde vamos morar (em co-edição com os Artistas Unidos), Ana (em co-edição com os Artistas Unidos).
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