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livrinhos de teatro - Artistas Unidos

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Sou o vento / Sono / O homem da guitarra

ISBN: 978-972-8972-20-2
Fosse, Jon
220 pp.

€10,00

Tradução de Pedro Porto Fernandes

 

"Sou um dramaturgo, mas para dizer a verdade, nunca o quis ser. Pelo contrário, eu não gostava de teatro e disse-o em várias ocasiões, por exemplo em entrevistas, que, de facto, na verdade eu odiava teatro, o teatro norueguês, pelo menos. Talvez tenha sido por isso que os directores artísticos me pediram para escrever para teatro, coisa que recusei fazer durante anos.

Eu fui, e sou, em primeiro e em último lugar, um escritor. Publiquei quase trinta livros, principalmente romances, mas também compilações de poemas e ensaios, e livros para crianças. Tenho ganho a vida como escritor livre. Mas há cinco anos atrás, tal como pode acontecer a alguém que não é pago de maneira regular, eu tinha muito pouco dinheiro e, mais uma vez, pediram-me uma peça de teatro, e, como precisava de dinheiro, disse que sim. Então, pela primeira vez, sentei-me a tentar escrever uma peça de teatro; antes de me sentar, decidi que ia escrever uma peça com poucas personagens, num único sítio, num único espaço temporal e que essa espécie de história que eu ia escrever seria tão intensa que as pessoas que a vissem durante uma hora teriam uma experiência intensa que, de alguma maneira, mudaria a sua visão da vida.
(…)

Como devem compreender, já não odeio o teatro e até agora escrevi nove peças, oito delas foram encenadas por bons teatros noruegueses. A mais recente será produzida num futuro próximo. As minhas peças também já foram traduzidas para muitas línguas e produzidas em países diferentes, por exemplo, em Estocolmo, Budapeste, Copenhaga, Londres e Paris. Desde que comecei a escrever para o teatro não escrevi mais nenhum tipo de ficção, por isso pode parecer que o homem que odiava teatro, pelo menos por enquanto, começou a olhar para ele como um escritor que fundamentalmente escreve peças.
(…)

Quando escrevo uma peça, reduzo e concentro, e esta concentração redutiva possibilita as súbitas explosões de uma espécie de sabedoria intensa indizível, ao mesmo tempo triste e engraçada. Para mim, o verdadeiro drama está aí, não na acção em si, o drama está na enorme tensão e intensidade entre pessoas que estão muito longe umas das outras e ao mesmo tempo profundamente juntas, não só socialmente, como também na compreensão que partilham. Estes momentos, esta presença incrível, está muito pouco, se é que está de todo, ligada aos temas principais do nosso tempo, aqueles passam nos meios de comunicação. O bom teatro pode ser sobre quase qualquer coisa; o importante não é o assunto sobre o que é, mas como o é; é uma questão de sensibilidade, musicalidade e pensamento, e não uma discussão sobre assuntos correntes. E acho que é por isso que os clássicos mantêm uma posição tão forte no teatro, uma posição mais forte que têm no mundo dos romances. Mas então porquê escrever para o teatro? Talvez porque todas as épocas produzem uma nova forma, ou uma variante dominante, de sensibilidade, uma nova forma de musicalidade e pensamento. Uma peça contemporânea, uma boa peça, deve de certa maneira mostrar uma sensibilidade, musicalidade e pensamento até aí nunca antes vistos, deve trazer para o mundo algo que até aí, de uma maneira estranha sempre lá estivera, mas ninguém tinha visto, por outras palavras, uma boa peça deve ter a sua própria voz, como se costuma dizer."

Jon Fosse in Artistas Unidos Revista nº 13


Logo nas primeiras páginas de uma peça de Fosse o texto prendeu a minha atenção: aqui está alguém que tem uma voz extremamente pessoal, um dramaturgo especial. Tornou-se logo evidente e não havia nenhuma dúvida. Se a memória não me falha tive a mesma sensação há quarenta anos quando li uma peça do então desconhecido Harold Pinter.

Louis Muinzer

 

O seu ritmo é repetitivo e obsessivo: os mesmos pensamentos as mesmas sensações repetem-se obsessivamente, revelando esquemas escondidos de acção. O único livro escrito até agora sobre a escrita de Jon Fosse: ”Replacing Happiness with a Comma (1996) de Espen Stueland, fala disso e de como as pausas no que é dito e escrito criam um sentido além daquilo que é concretamente dito.

Michel Cournot

 

 

Das suas peças emana uma luz muito particular que lembra a dos pintores escandinavos, Munch, por exemplo. Uma luz branca como acontece nos eclipses, mas uma luz que desenha com nitidez os contornos dos objectos e das personagens. Contradição? Não. Porque a ausência de luz corresponde a uma outra ausência: o número das personagens é sempre pequeno: são dois, três, quando muito quatro. Aumenta a concentração, agudiza-se a percepção porque um terceiro fenómeno aparece: e é a dimensão do tempo. O tempo parece ter parado no universo de Fosse. A linguagem simples e repetitiva revela a solidão profunda dos homens. A ausência de luz, o isolamento no espaço e o tempo quieto transformam as peças de Jon Fosse em instantes de grande recolhimento e essa é a finalidade confessa do autor "criar momentos em que um anjo passa".

Terje Sinding

 

 


SOU O VENTO

Na longa teia da obra de Jon Fosse este texto transpõe uma nova fronteira.
Onde estamos?
UM e O OUTRO evocam o passeio de barco à vela num dia de verão.
“Eu não queria, mas foi o que eu fiz”. O Outro interroga, procura compreender o suicídio do amigo. A alegoria do mar, a beleza e o pavor do mar. Eros e Thanatos.
A magia polémica do mais minimalístico texto de Jon Fosse.

 

O OUTRO
Aconteceu foi
Mas tu tinhas
sim tu tinhas tanto medo que acontecesse
Pausa curta
Sim tu tinhas-me dito
Pausa bastante curta
falaste-me disso

UM
Falei
Pausa

O OUTRO
E depois aconteceu
Pausa bastante curta
Aquilo que tu tinhas tanto medo que acontecesse
Pausa bastante curta
sim que viesses a fazer
Pausa bastante curta
aconteceu mesmo
Pausa curta

UM
Foi
Pausa

O OUTRO
É horrível

UM
Eu estou bem

O OUTRO
Sim

UM
Desapareci
Desapareci com o vento

 

 

SONO


Um apartamento - dois jovens casais com a vida diante de si: as encruzilhadas, os projectos comuns e os desencontros, os filhos que vêm ou não vêm, a solidão, a um e a dois, a dificuldade de comunicar, o envelhecimento, a doença, a solidariedade, o amor, o desespero, a esperança, a morte - sono eterno? No entrelaçar de três gerações no mesmo espaço – dez personagens em cena -  os ciclos da vida, à lívida luz de um espelho impiedoso.

 

A Segunda Jovem
Em que é que estás a pensar

O Segundo Jovem
Em nada (Pausa curta.)

A Segunda Jovem
Então não me vais dar um beijo
não faz mal

O Segundo Jovem
Oh claro que te vou dar muitos beijos
dia e noite
não é isso

A Segunda  Jovem
Mas não agora

O Segundo Jovem
Sim agora (Começa a andar na direcção dela.)

A Segunda Jovem
Não agora não quero

O Segundo Jovem
Mas disseste

A Segunda Jovem
Pois mas tu não querias

O Segundo Jovem
Claro que queria
não é isso

A Segunda Jovem
Mas não me deste

O Segundo Jovem
Desculpa

 

 

O HOMEM DA GUITARRA


Quem nunca passou por um músico de rua numa passagem de acesso ao Metro? Quem nunca deitou umas moedas no estojo aberto de uma guitarra ou de um violino? A figura do músico de rua é o ponto de partida e de chegada para este lindíssimo monólogo de Jon Fosse. Uma vida, sonhos desfeitos, o reconhecimento do fracasso, a reconciliação possível consigo mesmo.
As cordas que o Homem vai desapertando na sua guitarra, não ficam elas a vibrar dentro de nós? Um texto poético, pungente de melancolia e compaixão. 

 

E continuo a andar
Pelas cidades e ruas
Vejo as pessoas a ir e a vir
Estão sempre a passar
na minha passagem subterrânea
Vão e vêm
Olham para mim
E seguem sempre o seu caminho
Vão à sua vida
Vão e vêm
E seguem sempre o seu caminho
elas
Interrompe-se, pára de cantar
Elas
Olha em volta, vai sentar-se a um canto, com a caixa da guitarra entre as pernas
Para que é que eu quero isto
Se já não tenho guitarra
também já não preciso de caixa nenhuma
Pausa
Mas a caixa da guitarra é bem bonita
Velha e bonita
Talvez devesse
Levanta-se, encosta a caixa da guitarra contra a parede
Não não preciso
Anda um pouco
O que é que eu faço com uma caixa de guitarra
se já não tenho guitarra
Ri-se
Há um tempo para tudo
Para uma caixa de guitarra também
Ah pois
Começa a andar, com o mesmo passo lento e cambaleante, vê uma moeda que ficou no chão, ajoelha-se, agarra a moeda, enfia-a no bolso do sobretudo. Levanta-se, vê que há ainda um pouco de cerveja no copo, vai até ao balcão e esvazia o copo. Fica de pé, tira um pacote de tabaco do bolso de trás, enrola um cigarro, acende-o, depois sai lentamente. Pano

 

 


JON FOSSE nasceu em 1959 em Haugesund, no Oeste da Noruega. Fixou-se em Bergen nos anos 80. Escreve em novo norueguês, língua obrigatória nas escolas, mas que só é falada nessa região. Estreou-se na literatura em 1983, tendo publicado romances, poesia, ensaio, novelas e livros para crianças. A sua primeira obra para teatro foi escrita em 1994. É, actualmente, um dos contemporâneos mais representados na Noruega e no estrangeiro, com peças dirigidas por encenadores como Gunnel Lindblom, Claude Régy, Jacques Lassalle, Thomas Ostermeier, Barbara Frey, Katie Mitchel, Luk Perceval, Luc Bondy ou Valter Malosti.
Jon Fosse esteve em Portugal em Março de 2000, para a estreia de Vai Vir Alguém n’A Capital, com encenação de Solveig Nordlund e interpretação de Diogo Dória, Isabel Muñoz Cardoso e Paulo Claro. Voltou a 11 de Março de 2001 para assistir a Sonho de Outono, com encenação de Solveig Nordlund e interpretação de Gracinda Nave, Marco Delgado, Camacho Costa, Lucinda Loureiro e Sylvie Rocha. A Noite Canta os Seus Cantos estreou em Portugal a 26 de Fevereiro de 2004, no Teatro Taborda, com encenação de João Fiadeiro e interpretação de Américo Silva, António Simão, Isabel Muñoz Cardoso, Joana Bárcia e António Évora numa produção Artistas Unidos/ Re.Al. A 17 de Fevereiro de 2005, os Artistas Unidos estrearam Inverno no Teatro Taborda com encenação de Jorge Silva Melo e interpretação de Pedro Lima e Sylvie Rocha. Um inédito seu integrou o espectáculo Conferência de Imprensa e Outras Aldrabices em homenagem a Harold Pinter (TNDM II, em 2005). E em 2007, os Artistas Unidos estrearam no CCB, Lilás, uma peça para público adolescente.
Registos das suas intervenções quando esteve n’a Capital foram publicados na Artistas Unidos Revista (nº 2 e nº 4). Ainda na revista, encontram depoimentos do autor (nº 13) e, na revista nº 18, publicámos um dossier sobre Teatro Para Gente Jovem - Lilás.

Escreveu as peças: E Nunca nos Separarão (1994), O Nome (1995), Vai Vir Alguém (1996), A Criança (1997), Mãe e Criança (1997), O Filho (1997), A Noite Canta os seus Cantos (1998), Um Dia de Verão (1998, Sonho de Outono (1999), Quando a Luz Baixa e Fica Escuro (1999), Dorme, Meu Menino (1999), Visitas (2000), O Homem da Guitarra (2000), Inverno (2000), Variações Sobre a Morte (2001), Belo (2001) Rapariga no Sofá (2002), Lilás (2002), Os Cães Mortos (2003), Susana (2004), Sa Ka La (2004), Sono (2005), Calor (2005), Fedra (2005), Sombras (2006) Rambuku (2006), Lá ao Fundo (2006), Sou o Vento (2007).

Do mesmo autor nesta colecção:
A Noite Canta os seus Cantos (nº 4)
Inverno (nº 8)
Conferência de Imprensa e Outras Aldrabices (nº especial)
Breves Textos Para a Liberdade (nº especial)
Lilás (nº 19)

Na Artistas Unidos Revista:
Vai Vir Alguém (º2)

Noutros editores:
Sonho de Outono/ O Nome (Campo das Letras)

 

 

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