Stabat Mater: Maria, à procura
do filho desaparecido, acaba por socumbir. Ex-prostituta, mergulhada
na
miséria,
sozinha, resignada e cheia de ódio contra a sociedade. O texto é uma
longa afabulação não narrativa, onde a partir da
imagem marginalizada, mas vibrante das figuras de fé e do mito,
e da linguagem de rua dos imigrantes, que mistura os dialectos, com efeitos
de verdades e comicidades irresistíveis, sobressai a heresia,
própria da vida, de uma dor que não serve nem salva, e
da história que impiedosamente repete o seu ciclo sem evoluir.
Paixão Segundo João:Duas
personagens, um doente mental e o seu enfermeiro, alternam-se em monólogos
nas várias
estações que marcam um dia de manicómio. São
as etapas de um calvário percorrido por um louco que acredita
ser ELE, enquanto o seu acompanhante expõe os delírios
num ambiente de prepotências diárias nas quais ele também
participa
Autobiografia:
Antonio Tarantino: Nasci
em 1938. Não completei estudos académicos, pode portanto
dizer-se que sou autodidacta. Fui desenhador e pintor. Comecei a
escrever peças
de teatro depois dos cinquenta anos. Em 1993, recebi o Prémio
Riccione (um importante prémio de dramaturgia) por dois textos:
"Stabat Mater" e "Passione secondo Giovanni". A seguir, escrevi mais
peças:
"Vespro della Beata Vergine" e "Lustrini". Estas quatro peças
foram publicadas num volume da editora Ubulibri de Milão e
foram representadas em vários teatros italianos. Por esta "tetralogia" foi-me
atribuido o prémio Ubu, o mais prestigiado prémio do
teatro italiano. Entre 1995 e 1997, escrevi uma obra de grande fôlego,
Materiale per una Tragedia Tedesca, pela qual ganhei outra
vez o prémio
Ubu e o prémio Riccione. Nesta minha peça, os actos
de terrorismo ocorridos na Alemanha nos anos setenta, são
observados através de uma óptica peculiar: os dados
históricos
e a credibilidade "real" das personagens, protagonistas
desses mesmos acontecimentos, são irrelevantes, para não
interferir com a teatralidade (único elemento fundamental
e único
facto verdadeiro) do texto e da encenação. Em 2000,
escrevi uma peça que me foi encomendada pelo Centro Teatral
de Udine: Stranieri que foi lida naquela cidade. Entre 2002 e 2004
escrevi "A
Casa de Ramalah" e "A Paz". Os meus textos
foram traduzidos e encenados em França e na Alemanha. Se posso
exprimir aqui uma reflexão
sobre tudo o que escrevi nestes anos, acho que os meus textos vivem
no espaço que existe entre a empolada construção
daquela vã hipóstaste que, para o Humanismo é o
Ser Humano (nas suas várias declinações: religiosas,
políticas, politico-literárias, científicas),
e a nossa mesquinha realidade. O meu teatro é, assim, um teatro
do "refugo". Considerando "refugo" aquilo que
já não
pode ser utilizado nem desfrutado, e é também rejeitado.
Ou diferença entre o que somos e aquilo que acreditamos ser.
Antonio
Tarantino
No contexto de todos os
conflitos “históricos”
, as razões individuais ou colectivas de cada um dos militantes
dos dois blocos, submetem-se e são instrumentalizadas pelos
projectos dos grupos de poder opostos e, pelos mesmos, levadas
ao paroxismo através da propaganda. Desta maneira, os sentimentos
origináis dos dois povos que se defrontam, são manipulados,
enfraquecidos, e assim atirados para o fundo da cena dos acontecimentos
onde, em primeiro plano, se tornam cada dia mais evidentes os fins
e os propósitos dos dois poderes em conflito.
Assim, a cena, gangrenada pela guerra, está pronta para
ser pisada sem possibilidade nenhuma de oposição,
tratamento ou cura. Tudo o que podia pertencer a um autêntico
sentimento dos povos (amor pela sua história,
as suas tradições, a sua terra) é substituído pela
política, pela economia, e pelo armamento. Que agora observam, do alto
do seu incontestado domínio, o desenrolar dos acontecimentos. O caminho
da “história”.
Antonio Tarantino
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