Acompanhando a estreia, no Teatro Taborda, de Tão Só o
Fim do Mundo de Jean-Luc Lagarce, os Artistas Unidos publicam na colecção
Livrinhos de Teatro três peças deste autor francês.
Tão só o fim do mundo estreou
a 6 de Janeiro no Teatro Taborda com interpretações
de Joana Bárcia, José Airosa, Teresa Sobral, Américo
Silva e Fernanda Montemor e encenação de Alberto Seixas
Santos.
Tão só o fim do mundo
Um homem, um filho, regressa a casa dos seus que há muito deixara.
Sabe que vai morrer. Volta para lhes dizer. Volta a ver a mãe,
a irmã, o irmão e a cunhada. Gostava de lhes falar, de
lhes dizer quem é e como anda, os seus desejos e penas. Nada disso
consegue. É esta a incrível força desta peça:
nada é dito e, no entanto, cada um dos que se cala está entregue às
palavras. São lutas improváveis e subterrâneas de
que nos fala o teatro de Jean-Luc Lagarce. Para ocupar o lugar vazio
de um amor desfeito, incapaz de passar à linguagem. O homem
vai-se embora sem nada ter dito. Lagarce volta, seis anos, depois,
em Le Pays
Lointain a este mesmo rapaz. Tão só o
fim do mundo foi escrito por um homem que se sabia condenado.
Provavelmente só quem está perto da morte pode
ter uma tal preocupação com a justeza das palavras.
Em Lagarce, não se trata de preciosismo, esta precisão é a
sua escrita, exigente, rigorosa, não naturalista. Esta exigência
formal ultrapassa a história da família e dá-lhe
um lado universal, como todas as grandes obras literárias.
As regras da arte
de bem viver na sociedade moderna
Nascer não é complicado.
Morrer é muito fácil. Viver, entre estes dois acontecimentos,
não é necessariamente impossível. Basta seguir
algumas regras e aplicar alguns princípios para se adaptar.
Basta saber que, em todas as circunstâncias, existe uma solução,
uma maneira de agir, uma explicação para os problemas...
pois a vida não é mais do que uma longa sequência
de problemas para os quais cada um deve conhecer a solução.
Um manual de sobrevivência implacável e original. Uma lista dos
ritos que comandam a vida. Inspirado nos manuais de usos e costumes e de etiqueta.
As regras da arte de bem viver estreou em Julho de 1999,
em Viana do Castelo, no Teatro Municipal Sá de Miranda, uma produção
Teatro de Noroeste. Os Artistas Unidos apresentam uma nova versão em 2005
com direcção de Teresa Sobral e interpretação de
Isabel Muñoz Cardoso.
Estava em casa e esperava
que a chuva viesse
Cinco mulheres numa casa, no fim do Verão, desde o início
da tarde até à manhã do dia seguinte. A noite trará os
seus demónios.
Cinco mulheres e um homem jovem. Desiludido com tudo, desiludido com
as suas guerras e batalhas, volta, por fim, a casa, volta ao seu ponto
de partida para morrer. Está no seu quarto, no quarto onde foi
criança, adolescente, onde viveu antes de as abandonar brutalmente.
Elas, em torno da sua cama, protegem-no e tranquilizam-se mutuamente.
Elas cuidam dele, escutam a sua respiração, andam em bicos
de pés. Sussuram as suas histórias, esta ausência
de história em que vivem desde que ele as abandonou, a história
dele, uma longa balada através do mundo.
É
uma dança lenta das mulheres em volta da cama de um homem jovem
adormecido.
Estava em casa à espera que a chuva viesse estreou
em Março
de 1998, em Viana do Castelo, no Teatro Municipal Sá de Miranda,
uma produção Teatro de Noroeste.
Biografia:
Jean-Luc Lagarce nasceu
em Héricourt, França, a 14 de Fevereiro de 1956. Autor
de uma vasta obra para teatro reunida em quatro volumes publicados
na editora Les Solitaires Intempestifs (1999), escreveu ainda um ensaio,
Théâtre et Pouvoir en Occident (2001), três textos
em prosa, L’Apprentissage, Le Bain e Le Voyage à La Haye (2001)
e vários artigos reunidos no volume Du Luxe et de l’Impuissance (1997). Encenador e co-fundador da companhia “Le Théâtre
de la Roulotte” leva à cena, para além dos seus próprios
textos, autores tão diversos como Kafka, Ionesco, Molière
ou Wedekind. Morreu a 30 de Setembro de 1995.
Imprensa:
Lagarce escreve sem
recorrer a efeitos, numa língua simples e bela. Usa poucas palavras,
sempre justas, sempre as mesmas como em Racine. Alguém vai morrer. É uma
questão de tempo. A escrita também é uma questão
de tempo: aqui é a palavra que toca a finados.
Frédéric Ferney, Le Figaro
A língua de Lagarce é bela, simples, sem qualquer ênfase.
Não recorre a imagens. Há uma economia que lhe confere
um tom lírico, sugere mais do que diz. E há um ritmo,
uma musicalidade da palavra.
Raymonde Temkine, Europe
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