Cinco peças curtas
inéditas.
"O que eu te queria
dizer, o que eu queria que me dissesses"
Um Homem. Uma Mulher. Ele fala do
que lhe queria dizer. Ela do que queria que ele lhe dissesse. No fundo
falam do mesmo, de si, de tudo e de nada. Do que os aproxima e do que
os afasta. Da simplicidade e da complicação das relações.
Do amor. Do que é amar. De como dizer que se ama. De como se ama.
É a síntese
do amor e do ódio, meu amor, e se te falo em ódio é só porque
insistes em não tirar essa camisola, e em deixar-me andar à tua
volta sem saber o que fazer, sem me conseguir descolar de ti, como
se fosse o teu irmão siamês, mas ao mesmo tempo estando
completamente separado de ti porque não consigo que o meu
calor passe para dentro do teu frio, o que seria simples de fazer
se deixasses que eu te abraçasse…
"Colóquio de
amor"
Um Homem. Uma Mulher. Um amigo. O amor. O desejo. A posse. O que se pode dizer.
O que se pode escrever. O que existe suspenso, não dizível, não
palpável. A cabeça. O coração. O corpo. A literatura
e a vida.
Não te quero meu; quero que estejas em mim, mas como se
fosses de toda a gente, como se o mundo todo passasse por ti, obrigando-te
a seres todo o mundo, até esse ponto em que te podes confundir
com ninguém, como se o teu rosto fosse uma folha transparente
através da qual vejo e leio todas as tragédias e todas
as paixões que atravessam a vida de homens e mulheres, até ao
limite do ser em que a fronteira do nada se torna perceptível.
"O crime perfeito"
Um homem fala ao telemóvel com uma mulher. Conta como manteve uma série
de encontros num quarto de hotel com outra mulher, sabendo que ela os via pela
janela da frente. Conta como se apaixonou por ela e que no último encontro
disse à outra que não podiam mais continuar. A mulher com quem
fala diz-lhe que a outra mulher nunca chegou a casa do último encontro
com ele. Acusa-o. Diz que chamou a polícia.
É isso – posso
dizer-lhe – o amor! O mais perfeito de todos os crimes – compreende
agora?
"Área de serviço"
Pessoas numa área de serviço, à beira da estrada. Uma
alucinação trágica, recheada com referências clássicas
e iconografia portuguesa. Hamlet. Hambúrguer e ketchup. Motos e Polícias.
Sexo e Morte. Drogas e Música. Vénus de Milo. Titanic. King Kong.
Romeiro. Ninguém. Maria. Sebastião.
Estamos em Portugal,
isto tinha de acabar mal!
"O regresso de fausto"
Dois vagabundos, como todos os vagabundos de hoje, gente escondida nas entradas
dos prédios, nos vãos de escadas, nos corredores do metro,
falam de si, da contagem do seu tempo, de terem ou não perdido o
seu tempo, olham-se ao espelho para se encontrarem. Fausto e Mefistófeles
encontram-se na rua. Fausto já andava há muito a pensar em
telefonar a Mefistófeles. Fausto continua sem alma e confessa que
a única forma que tem de imaginar que ainda tem uma é salvar
as almas que andam perdidas, dando-lhes felicidade e roubando-lhes as almas.
Vêem os vagabundos e Fausto faz-lhes uma proposta de um negócio…
2º Vagabundo
É a alma que ele pretende? Podes entregá-la, não te fará falta.
1º Vagabundo
Estás louco? Preciso dela, sempre a tive comigo, e nas alturas em que
fazia mais frio, em que tinha fome, em que os cães corriam atrás
de mim, a alma aquecia-me, dava-me força para correr, ensinava-me o
caminho nos terrenos baldios, até aos muros que eu saltava para me ver
livre de tudo o que me perseguia. E se ficar sem alma, se um dia chegar ao último
limite, onde irei encontrar recursos para sobreviver? Ao menos, com a alma,
poderei entrar numa casa de penhores, e com o que me derem por ela resistirei
umas semanas, até arranjar o dinheiro que me permita resgatá-la.
Biografia:
Nuno Júdice
Nasceu em 1949, na Mexilhoeira Grande, Algarve. Formou-se em Filologia Românica
pela Faculdade de Letras de Lisboa. É Professor Associado da Universidade
Nova de Lisboa, onde se doutorou em 1989 com uma tese sobre Literatura Medieval.
Tem publicado estudos sobre teoria da literatura e literatura portuguesa, bem
como algumas antologias e colabora regularmente em jornais e revistas com críticas
de livros e crónicas.
Colaborou em acções de divulgação cultural, como
as "Letras Francesas" (1989), e organizou a "Semana Europeia
de Poesia no âmbito de Lisboa Capital Europeia da Cultura"(1994).
Foi comissário para a área da "Literatura de Portugal como
país-tema da 49ª Feira do Livro de Frankfurt" (1997).
É poeta e ficcionista. Publicou o seu primeiro livro de poesia em 1972.
Recebeu os mais importantes prémios de poesia portugueses. Está representado
em inúmeras antologias, tendo participado nos mais importantes festivais
de poesia, como o de Roterdão e o de Medellin. Dirigiu a revista "Tabacaria" da
Casa Fernando Pessoa até ao número 8.
Em 1997, foi nomeado Conselheiro Cultural da Embaixada de Portugal e Director
do Instituto Camões em Paris, cargos que exerceu até 2004.
Em teatro, foi tradutor de algumas peças, como "Sertório" de
Corneille (editada na Relógio d´Agua) ou "A Ilusão
Cómica" de Corneille (editada pelo Teatro Nacional São João)
e tem editadas as suas peças "Antero – Vila do Conde" (& etc)
e "Flores de Estufa" (Quetzal). Tem obras editadas na Venezuela,
na Espanha, no México, na França, na Bélgica, na Suécia,
na Dinamarca, na Holanda, no Vietname, na Itália, na Bulgária,
em Israel ou na República Checa.
|