Vésperas
da Virgem Santíssima
O terceiro texto intitula-se
Vésperas
da Virgem Santíssima e foi-me sugerido por uma notícia
de jornal. Um rapaz, que morava no mesmo prédio que eu, começou,
depois de ter feito o serviço militar, a trabalhar como travesti
perto do quartel Cavalli (o mesmo onde tinha feito o serviço
militar). Depois teve um conflito com o pai e com a família,
saiu de casa e foi morar para Milão. Um dia, soube que este
rapaz se tinha suicidado, atirou-se de uma janela. Imaginei que uma
noite o pai recebia um telefonema, um pedido de ajuda do filho que
lhe anunciava o seu propósito suicida.
Antonio Tarantino
Brilharetes
Uma noite fui
comprar cigarros à estação dos comboios, era bastante
tarde e vi um homem a olhar fixamente para mim. Lembrava-me daquele
homem, lembrava-me de o ter conhecido trinta anos antes. Ele olhava
para mim com olhos de pessoa que dorme ao relento, que precisa de ajuda,
e naquele momento fez-me um gesto. Queria um cigarro. Eu dei-lho e
olhei para ele e perguntei: “És o Brilharete, não és?”.
E ele assentiu. Dei-lhe o cigarro, levei-o para um café e dei-lhe
algum dinheiro.
Lembrei-me da história daquele homem a quem, naquela altura, todos chamavam
‘o poeta’. Era uma pessoa culta, uma pessoa culta que de repente… Lembro-me que,
nos anos 50, me recomendou a leitura de Vadios de Pasolini. Dirigia a biblioteca
do círculo comunista Garibaldi de Turim. Depois, de repente, desapareceu
de circulação. Era um homem que aparentemente podia ter sido alguém
na vida.
Antonio Tarantino
Antonio
Tarantino: Nascido em Bolzano em 1938, Antonio Tarantino pintor
auto-didacta decide, já depois dos seus cinquenta anos e sem
saber bem porquê começa
a escrever textos de teatro. Os seus primeiros trabalhos Stabat
Mater e Paixão Segundo João (publicados no nº11 da colecção
Livrinhos de Teatro) ganharam o prémio Riccione, um importante
prémio de escrita teatral.
Entre 2000 e 2005 escreveu La Casa de Ramallah, La Pace, Trattato
di Pace, Non é che
Un Piccolo Problema, os dois últimos nunca publicados nem representados,
e A Coxa Vai Parir Mas o Bebé Quer Lá Saber de Nascer, integrado
no espectáculo Conferência de Imprensa e Outras Aldrabices , encenado
por Jorge Silva Melo, levado à cena pelos Artistas Unidos em 2004. Também
pelos Artistas Unidos foi realizada uma leitura pública de A Casa
de Ramallah,
dirigida por João Meireles e integrada no Festival de Almada em 2004,
e encenados os espectáculos Paixão Segundo João com Miguel
Borges e Américo Silva e Stabat Mater com Maria João Luís,
ambos encenados por Jorge Silva Melo. Antonio Tarantino assistiu a ambos os espectáculos
a 21 e 22 de Outubro no convento das Mónicas em Lisboa.
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