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Analectos

ISBN:978-989-8231-16-1
Confúcio
240 pp.

€8,00

     
tradução e posfácio de António Guerreiro    
preâmbulo, introdução e notas de Simon Leys    


Quando, por volta de 1971, me encontrei com o meu ex-professor Vergílio Ferreira — que, nas horas vagas das lições de Latim, nos dava paleio sobreMaio de 68 e outras questões candentes que suscitavam infinitamente mais o nosso entusiasmo do que o monótono rosa, rosae—, a primeira coisa que ele me perguntou, à queimaroupa, foi: «Então, também já és maoísta?» Não recordo o que lhe terei respondido, por certo meio entaramelado, mas sei que nessa altura ainda não tinha lido Les habits neufs du président Mao, livro que, publicado precisamente em 1971, não tardou a valer a celebridade ao seu autor, um tal Simon Leys, precisamente por se tratar de um vigoroso «panfleto» antimaoísta numa época em que (quase) toda a (jovem, e não só) esquerda bem-pensante andava fascinada com a Revolução Cultural e luzia o olho para as bandas de Pequim. Nessa altura — em plena campanha ‘pi Lin pi Kong’ — seria evidentemente impensável falar-se de Confúcio, proscrito e execrado por todos os revolucionários chineses desde o fim do século XIX, e o próprio Simon Leys refere o espanto com que, bastantes anos mais tarde, vários dos seus amigos chineses acolheram a notícia de que ele estava a traduzir Confúcio. Vem este arrazoado de cariz político a talhe de foice por três razões, interligadas: a primeira é que os escritos que chegaram até hoje como veículo do pensamento de Mestre Kong—os Analectos—formam um conjunto lasso de apólogos e preceitos eminentemente político; a segunda é que esse conjunto heteróclito de preceitos, reflexões e anedotas exemplares se transformou numa doutrina de Estado, numa ideologia imperial que vigorou e marcou a vida e a mentalidade chinesas e continua a marcá-la; e a terceira é que um dos principais motivos de interesse do trabalho efectuado por Simon Leys sobre os Analectos consiste numa re-leitura, numa re-visão do pensamento do Mestre que procura libertá-lo do espartilho ideológico do confucianismo ortodoxo em que foi sendo aprisionado, desvirtuado e sufocado ao longo de dois milénios.

In «Posfácio», por António Gonçalves

 
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