Quando
Pascoaes inventou Portugal não se deu conta do que tinha feito: pensou
que se tinha limitado a descobri-lo. Quando imaginou os Portugueses,
entregando-lhes as palavras e as visões que só a ele pertenciam,
enganou-se. Os Portugueses de Pascoaes nem sequer existiam. Pascoaes
nunca percebeu que era tudo invenão dele.
Escreveu
um livro, a Arte de ser Português, recusando a
responsabilidade da criação, na ânsia de ser apenas um espectador.
Pascoaes
não queria ser mais um poeta. Queria servir, servir e pertencer. Não queria
ficar de fora nem sozinho. Queria escrever, mas escrever como quem presta
um serviço: um serviço de observar, de ouvir, de descrever. Não queria ser
mais um escritor português. Queria ser o escritor através do qual escrevia
Portugal. Nem menos!
Miguel
Esteves Cardoso
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