
Herman Melville nasceu em Nova Iorque, em 1819, no mesmo ano que Walt Whitman, e morreu em 1891, o ano do nascimento de Henry Miller. É, portanto, contemporâneo do período da génese de um pensamento americano e um dos seus pilares. Coetâneo de Hawthorne e Edgar Allan Poe, génio devorador, barroco, herético, escreveu, com Moby Dick, uma das grandes epopeias da literatura mundial e, com Billy Budd, o mais simples e doloroso testamento espiritual de um escritor toda a vida consumido na luta para definir as fronteiras entre o Bem e o Mal, de um escritor queimado na fogueira das dúvidas ontológicas.
Billy Budd é um livro raro. Testamento espiritual, premeditadamente testamento, é a prova documental da reconciliação de um homem revoltado com o mundo. Mais precisamente, de um escritor que experimentou a constante vivência de um náufrago do pensamento absurdo (tal como o definiu Camus) e que fez da sua obra o campo de batalha onde quis ver digladiarem-se as forças que em si próprio se combatiam. Billy Budd é o livro de um herético agnosticamente reconciliado com a sua vida e com a sua morte, que ocorre exactamente no ano em que dá esta narrativa por concluída. (…) Livro raro, que poderia ser o reverso do orgulho do Estrangeiro, de Camus, será ainda uma nova forma de protestar contra a fatalidade do pecado original: «A única salvação que desejamos é a de viver neste mundo».
In «Nota Final», por José Sasportes
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