Pelo
tom agreste, pelas cores sombrias até à repulsa, pela tensão quase
raivosa das situações e da linguagem (aliás despojada dos floreios
elegantes com que muitas traduções insistem em ornamentar
os textos do autor) este Cadernos do Subterrâneo é «puro» Dostoiévski.
Publicado em 1864 numa revista, este livro já prefigura as obras ditas
do autor, sendo por isso considerado um texto fundamental para a compreensão
da obra de Dostoiévski. O livro tem duas partes: a primeira é um longo
e violento monólogo (os «Cadernos»), em que o autor humilhado se humilha
ainda mais, até à degradação; a segunda põe o herói em acção, ilustrando
o confronto do seu ego degradado com as franjas da sociedade que vai
encontrando. O «guincho ignóbil» (como disse Gorki) a que desceu este
herói do nosso tempo é também a voz - embora guinchada e repulsiva
- que passa por toda a obra de Dostoiévski: a da afirmação do direito
à liberdade do indivíduo, seja quais forem os contornos
que assuma.
Fiódor
Dostoiévski nasceu em 1821 em Moscovo de uma família modesta. Esteve
preso e cumpriu trabalhos forçados na Sibéria. Viajou pela Europa,
tendo residido na Alemanha até 1871, ano em que regressou à Rússia
onde morreu dez anos depois. Escreveu algumas das mais conhecidas obras
da literatura mundial, como Crime e Castigo (1866), O
Jogador (1867), O Idiota (1868), Demónios (1872),
Os Irmãos Karamázov (1880).
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