
A Bíblia foi e ainda é o território
primeiro de experimentação
e teorização do acto de traduzir. Henri
Meschonnic
José Tolentino Mendonça
fez uma bela tradução
do mais problemático dos textos canónicos. O problemático
estatuto canónico do Cântico deriva, aliás, do
facto de se deter sobre o amor humano, completamente humanizado e
com valor em si mesmo, independente da procriação,
apenas consagrando o horizonte ético e poético do casal.
Estamos perante um poema, e um poema nupcial, mesmo se têm
sido feitas interpretações alegorizantes, por vezes
para salvaguardar precisamente o estatuto canónico do texto.
O amor humano, visto no Cântico dos Cânticos nos seus
cumes e perplexidades, introduz outra novidade: o amor entre o homem
e a mulher é vivido – e enunciado – em paridade. Aqui reside
outra releitura bíblica significativa: a igualdade entre homem
e mulher, que (uma vez mais) está na origem do cristianismo
(e do judaísmo), e não é, como se pensa, uma
aquisição recente.
Pedro
Mexia
Desenho
de labaredas, na precisa expressão do seu recriador,
este livro é um dos acontecimentos poéticos maiores
na língua portuguesa destes tempos de usura. Uma rigorosa
introdução e notas completam a edição,
que transforma uma passagem tantas vezes moralizada por leituras ínvias
e beatas na esplendorosa celebração que é do
amor e dos amantes.
Bernardo
Pinto de Almeida
José Tolentino Mendonça (1965) começa
a editar a sua poesia nos começos da década de 90,
e é considerado uma das vozes mais originais da sua geração.
Tem desenvolvido uma importante actividade como ensaísta e
tradutor. Professor de Estudos Bíblicos, na Universidade Católica
Portuguesa, uma das suas linhas de investigação é a
Bíblia enquanto literatura.
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