
«Filhos com mães, pais com filhas, irmãs lésbicas,
amores que não ousam dizer o seu nome, sobrinhos com avós,
presos com buracos de fechadura, rainhas com touros laureados. Um filho
não nascido ensombra a beleza; nascido, traz dor, divide afectos,
aumenta cuidados. É rapaz: o seu crescimento é o declínio
do pai, a sua juventude a inveja do pai, o seu amigo
o inimigo do pai… Que os liga na natureza? Um instante
de cio cego.»
Ulysses, James Joyce
«Dunne assegura que a morte nos ensinará o
feliz manuseio da eternidade. Recuperaremos todos os instantes
da nossa vida e combiná-los-emos como bem nos parecer. Deus,
os nossos amigos e Shakespeare colaborarão connosco. Perante
o esplendor de uma tal tese, qualquer falácia cometida pelo
autor não tem qualquer importância.»
Otras
inquisiciones, Jorge Luis Borges
«Nietzche segue ambiguamente
Hamlet quando nos diz que só conseguimos encontrar palavras
para o que já está morto no nosso coração,
e que, por isso, há sempre uma espécie de desprezo
no acto de falar. Antes de Hamlet nos ter ensinado a não ter
confiança na linguagem ou em nós próprios, ser-se
humano era muito mais simples para nós, mas igualmente bem
menos interessante. Shakespeare, através de Hamlet, tornou-nos
cépticos nas nossas relações com os outros,
porque nos ensinou a duvidar da possibilidade de articulação
no domínio dos afectos. Se alguém nos diz de modo demasiado
rápido ou eloquente quanto nos ama, somos tentados a não
acreditar, porque Hamlet se alojou em nós, do mesmo modo que
habitava em Nietzche.»
Shakespeare:
the Invention of the Human, Harold Bloom
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