
Joseph Conrad (Józef Korzeniowski) nasceu em 1857, numa região da Polónia anexada pela Rússia (actual Ucrânia); os pais eram nacionalistas polacos, expulsos do país em 1862. Aos vinte e um anos, em Inglaterra, decide-se pela marinha mercante. Em 1886 é cidadão britânico e, passados vinte anos de mar (Extremo Oriente, Congo, América do Sul), torna-se escritor —em inglês. Os temas de Histórias Inquietas (Tales of Unrest, 1898) são, contra um fundo de exotismo e aventura, os mesmos que desenvolverá futuramente em Lord Jim, Heart of Darkness, Nostromo, The Secret Agent, Under Western Eyes, Chance Victory, The Shadow-Line, The Rescue — memórias de traições, o confronto da «civilização» com os «primitivos», o poder da fé, o vazio espiritual das metrópoles europeias, a «exportação» do capitalismo europeu para o resto do mundo, a condição da mulher… tratados com ironia, preocupação política, filosófica, étnica e ética…e com
a mestria que fizeram dele um marco da literatura inglesa. O cinema adaptou-o várias vezes (Hitchcock, Wajda, Coppola, Roeg).
«Desembarcámos. Há alguma coisa boa neste país? Os caminhos avançam a direito e são duros e cheios de pó. Os campos férteis têm no meio kampongs de pedra, cheios de caras brancas, mas todos os homens que se encontram são escravos. Os Rajás vivem com o fio da espada estrangeira sobre a cabeça. Subimos montanhas, atravessámos vales; ao pôr-do-sol entrávamos em aldeias. Perguntávamos a toda a gente: “—Viste um homem branco assim e assim?”Alguns olhavam-nos com espanto; outros riam-se; as mulheres davam-nos comida; às vezes, com medo e respeito, como se tivéssemos o espírito perturbado pela visitação de Deus; mas outros havia que não compreendiam a nossa língua e outros ainda que nos amaldiçoavam, ou bocejavam, perguntavam com desprezo pela razão da nossa busca. Uma vez, quando já nos afastávamos, um velho atirou-nos: “—Desisti!”»
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