
Um diplomata brasileiro recém-chegado à China é enviado,
contra sua vontade, aos confins da Mongólia em busca de um jovem
fotógrafo desaparecido um ano antes nos montes Altai.
Mongólia é ao mesmo tempo relato de viagem e ficção,
numa espécie de diálogo que se estabelece entre o diário
deixado pelo desaparecido e aquele que é escrito pelo diplomata
que foi encarregado de o encontrar um ano depois, como se só pudessem
avançar sobre as suas próprias palavras. São diários
que relatam o contacto com os nómadas do deserto de Gobi e nas
estepes mongóis; a vida dos tsaatan, criadores de renas, na fronteira
com a Rússia, e a dos criadores de camelos no deserto do Sharga;
o encontro com um cantor difónico, com um improvável monge
budista e com um falcoeiro cazaque. Mostram um povo que exercita o misticismo
como quem descobre a liberdade depois de setenta anos sob o jugo de uma
ditadura comunista. Um país em que a memória se perdeu
pelo uso da força, e a imaginação, antes cerceada,
agora toma o lugar da memória, confundindo-se com as condições
mais extremas da realidade.
Nos seus diários, o desaparecido e o diplomata revelavam a dificuldade
de se relacionar com o que não conhecem. Expõem os seus
preconceitos e limites enquanto um segue à procura do outro, ora
desconfiados ora iludidos, condenados a ver uma realidade que deve muito às
suas próprias imaginações e desejos, assombrados
por histórias que parecem auto-reproduzir-se e cuja veracidade
já não podem provar a não ser com a própria
perdição. Histórias que os levam a embrenhar-se
num mundo que não compreendem, um labirinto sem paredes. E, conforme
um se aproxima do outro, nesse confronto entre Ocidente e Oriente, também
a narrativa parece encaminhar-se para uma integração impossível
entre modos diferentes de ser e pensar, num esforço para resgatar
o que foi separado na origem, o que se perdeu e só poderá ser
encontrado no terreno da ficção.
Bernardo
Carvalho (n. 1960, Rio de Janeiro) é considerado o mais original escritor brasileiro
dos anos 90. Traduzida já para mais de dez idiomas, a sua escrita
depurada, urbana e cerebral, em que nada é o que aparenta ser,
agarra o leitor como um vício. Em 2002, viajou à Mongólia
com uma bolsa criada em parceria pela editora Livros Cotovia e pela Fundação
Oriente, de Lisboa. Este livro é o resultado desse projecto.
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