O
mundo tem sido muito generoso com este livro. As vendas da edição
inglesa ultrapassaram o milhão e meio de exemplares. […] Foi
traduzido, julgo, para todas as línguas europeias e para algumas
asiáticas. Trouxe-me milhares de cartas de gente jovem e de
gente velha; de gente sã e de gente doente; de gente alegre
e de gente triste. […] Se as cartas fossem a única consequência
deste livro, ainda assim eu estaria contente por o ter escrito. Guardei
algumas páginas enegrecidas de um exemplar que me foi enviado
por um oficial colonial da África do Sul. Retiraram-nas da
mochila de um camarada morto em Spio Kop. Não existe melhor
testemunho. Resta-me explicar o mérito que justifica um sucesso
tão extraordinário. Sou incapaz de o fazer. Já escrevi
livros que me parecem mais inteligentes, outros que me parecem mais
engraçados. Mas é como autor de Três homens num
barco (já para não falar do cão) que o público
teima em lembrar-se de mim. Alguns críticos insinuaram que
a vulgaridade do livro, a sua completa falta de humor, explica o
sucesso junto do público – mas, desta vez, pressinto que isso
não decifra o enigma. A arte pode ser má e ter sucesso
durante algum tempo junto de algum público; mas não
vai alargando o seu círculo durante quase meio século.
Cheguei à conclusão de que, seja por que razão
for, colho eu os louros de ter escrito este livro. Isto, se é que
o escrevi – porque, na verdade, mal me lembro de o ter escrito. Lembro-me
apenas de me sentir muito jovem e absurdamente contente comigo mesmo,
por razões que só a mim dizem respeito. Era Verão,
Londres é belíssima no Verão. Sob a janela eu
tinha uma cidade de fadas coberta por um véu dourado de neblina,
pois o local onde trabalhava era muito alto, acima das chaminés; à noite
as luzes brilhavam ao fundo, e eu olhava lá para baixo como
se estivesse a olhar para a caverna das jóias de Aladino.
Foi nesses meses de Verão que o escrevi; pareceu-me ser a única
coisa que podia fazer.
Jerome
K. Jerome
(1859-1927).
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