Poucos seres humanos
desejaram a felicidade com a veemência, a ternura, a
embriaguez febril do adolescente Marcel Proust. Provavelmente, só o
jovem Tolstoi, a quem estava ligado por estranhas afinidades e semelhanças,
procurou a felicidade com a mesma dolorosa e irreprimível ansiedade:
queria que a vida continuasse a ser o que era, apenas um instante -
mas que transpusesse de imediato um limite, convertendo-se num misterioso
além, numa epifânia do invisível e do além-tempo.
O jovem Proust foi feliz, ou pelo menos disse, contou e imaginou que
o foi. Era feliz porque um raio de sol brilhava, porque cheirava o
perfume de uma flor, porque amava um rapaz ou uma rapariga, porque
amava a mãe, porque lia um bom livro, porque descobria as grandes
leis da existência - e sobretudo porque as coisas são
belas por serem o que são e a existência é uma
beleza calma que se derrama à sua volta.