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Caso único, pelo
tema, pela estrutura e pelo estilo, Satyricon, o célebre texto
atribuído a Petrónio (conselheiro de Nero e testemunha
daquela época de extravagância, diletantismo e volubilidade
sexual), sai agora a público, na primeira versão feita
para português a partir do original latino.
Este ‘livro das lascívias’,
considerado o primeiro romance realista e
pai do género picaresco, constitui uma sátira prazenteira, lúdica
e crítica, dos excessos da Roma imperial do século I. Cerca de
dois mil anos depois, o leitor, seduzido, desde as primeiras páginas,
pela rede de episódios satíricos desta obra estilisticamente simples
e narrativamente moderna, entra num universo singular, cujos contornos, porém,
são intemporais. A espantosa galeria de personagens de Satyricon exibe-se
num desenho tão exacto que as torna inquestionavelmente verosímeis,
quase reais, e actuais: Trimalquião, por exemplo, o novo-rico cuja monstruosa
fortuna corresponde apenas a um monstruoso gosto e a uma monstruosa educação;
ou Encólpio, o narrador falicamente dotado que tem que sofrer os amargos
desaires da impotência; ou Gíton, o adolescente cuja beleza desarma
qualquer um, etc.
Paródia, humor, ironia, é esta a atmosfera que aguarda o leitor
desta obra maior, na belíssima tradução de Delfim Leão.
*Delfim Leão: docente
e investigador na Faculdade de Letras da Universidade
de Coimbra, na área da História da Cultura Clássica. Publicou
vários livros, com especial destaque para traduções, a partir
do original grego ou latino, de Sólon, Heródoto, Aristóteles,
Plutarco e Marcial. Em 2004, recebeu o Prémio de Tradução
Científica e Técnica em Língua Portuguesa, promovido pela
Fundação para a Ciência e a Tecnologia/ União Latina,
com a versão portuguesa de Constituição dos Atenienses,
de Aristóteles.
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