Letty agora encontrava
frequentemente coisas que lhe lembravam a sua própria mortalidade
ou, vistas de forma menos poética, os diferentes estádios
em direcção à morte. Menos óbvias do
que os obituários no Times Telegraph, eram aquilo
a que se chamava visões ‘perturbadoras’. Esta manhã,
por exemplo, uma mulher, caída num barco da plataforma do
Metropolitano enquanto as multidões da hora de ponta passavam
apressadamente por ela, lembrou-lhe tanto uma colega de escola
que Letty se obrigou a olhar para trás, para se certificar
de que não era Janet Belling. Parecia não ser, e
contudo podia ter sido, e mesmo que não fosse ainda assim
era alguém, uma mulher levada ao ponto de chegar a esta
situação. Dever-se-ia fazer alguma coisa? Enquanto
Letty hesitava, uma mulher jovem, com uma saia comprida preta empoeirada
e umas botas descambadas, curvou-se sobre a figura caída
e fez-lhe uma pergunta num tom afável. A figura ergueu-se
de imediato e gritou-lhe, numa voz alta, perigosamente descontrolada:
“Vai-te foder!” Portanto não podia ser Janet Belling, pensou
Letty, com uma primeira sensação de alívio;
Janet nunca teria usado uma expressão daquelas. Mas há cinquenta
anos ninguém o faria - as coisas agora estavam diferentes,
portanto não se podia guiar por isso. Entretanto, a rapariga
afastou-se com dignidade. Fora mais corajosa do que Letty.
Quando se diz de uma pessoa
ou situação que é tipicamente ‘pymiana’, o leitor inglês identifica
imediatamente a referência. A escrita e o humor de Barbara Pym (1913-1980),
os seus retratos tragicómicos do quotidiano de uma certa classe média
inglesa cultivada, fazem dela uma deliciosa autora de culto que é uma pena
não conhecer.
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