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Foram
só dois encontros antes de ela começar a contar a história.
Antes de aceitar me receber na sua casa, precisava confirmar que
eu não compreendia mais que umas poucas palavras de japonês.
Ela podia não ler português, mas tinha faro para as
pessoas. Era uma mulher desconfiada. Acabei entendendo que, para
ela, era menos importante que eu fosse de fato um escritor do que
saber se eu era a pessoa certa para escutá-la. Me testava.
Disse que tinha um trabalho para mim. Estava disposta a pagar.
O
sol se põe em São Paulo, pp. 22 – 3
E é assim
que tudo começa no mais recente romance de Bernardo Carvalho.
Um publicitário desempregado com veleidades de escritor, descendente
de japoneses mas ignorante no que toca à cultura dos seus
antepassados, aceita o desafio de uma octogenária japonesa
e viaja até ao Japão para esclarecer os pormenores
obscuros de uma história. Como já seria de esperar
num romance de Bernardo Carvalho, em que o leitor é constantemente
surpreendido e ludibriado, esta investigação acaba
por adquirir contornos enganosos e, quando damos por nós,
já penetrámos no imaginário de Junichiro Tanizaki
(1886 - 1965), um dos maiores e mais populares autores da literatura
japonesa.
“É óbvio
que, se eu trato de temas homossexuais, isto tem respeito intrinsecamente
a quem eu sou. Mas há empobrecimento da compreensão
da literatura quando você reduz a percepção a
quem o artista é. Então resolvi fazer um livro em que
seria impossível me reconhecer. Todos são japoneses.
E queria que fosse sobre literatura: sobre o que é ser um
escritor, o que significa e para que serve escrever um livro.”
Bernardo
Carvalho, Folha de S.Paulo
Bernardo
Carvalho (1960) é autor de Aberração, Teatro,
Nove noites e Mongólia. É considerado o mais original
escritor brasileiro da actualidade. Traduzida já para várias
línguas, a sua escrita depurada, urbana e cerebral, em que nada é o
que aparenta ser, agarra o leitor como um vício.
Sorte
dos leitores, aqueles dispostos a embarcar na experiência que ele [Bernardo
Carvalho] chama de "criação de uma máquina desvairada de fazer ficção".
Ficção, Trabalho artístico. Que fique claro.
Valor
Econômico
O sol
se põe
em São Paulo insere-se na Colecção Sabiá dos
Livros Cotovia que pretende divulgar os melhores autores brasileiros
da contemporaneidade. Assim, continuaremos a publicar aqueles que já consideramos
como “nossos autores”, Adélia Prado, Sérgio Sant’Anna,
Rubens Figueiredo, Milton Hatoum, Raduan Nassar, Samuel Rawet e André Sant’Anna,
e prosseguiremos na senda de dar a conhecer o melhor que se publica no
Brasil.
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