« O
processo de selecção foi difícil – há um
excesso de material excelente, muito do qual, por outro lado,
tinha de rejeitar por razões extraliterárias. O
que segue, então, é uma combinação
do dulce e do utile (outro lugar-comum de quase toda escrita
sobre a crónica), com ênfase no primeiro; mas, como
aprendi história brasileira na companhia deste gênero,
achei que podia ser revelador dar uma espécie de ordem
histórica – experimental, como disse, e que não
foi imposta de fora. Ao contrário, foi surgindo enquanto
escolhia os autores e as crónicas. Isto para ajudar a
compreensão e ajudar a entender o Brasil, o que não
deixa de ser dulce também.
Finalmente, devo talvez dizer que o leitor pode achar que o Rio de Janeiro
tem aqui uma representação excessiva. Pode ser, mas há razões
para isso. Sobretudo no passado, quando era a capital – a “Corte”, a
“Capital Federal”, a “Cidade Maravilhosa” –, o Rio reflectia, de forma
concentrada, mudanças que afectavam todo o país. O que é muito
importante, sua geografia histórica – a velha cidade de aspecto
ainda colonial, caótica, de Machado de Assis; a Avenida Central
e o elegante Botafogo da belle époque; os prédios de Copacabana;
a vida praieira da Ipanema dos tempos da bossa nova; as favelas subindo
nos morros, pertinho dos bairros da burguesia – ofereceu símbolos
e imagens, que, para bem ou mal, reflectem o país inteiro. »
John Gledson, in
“apresentação”, Conversa de burros, banhos
de mar e outras crónicas exemplares
John
Gledson nasceu
em Northumberland, Inglaterra. Doutorou-se pela Princeton University.
É um dos mais prestigiados brasilianistas europeus, destacando-se
pelo profundo conhecimento da obra de Machado de Assis e pelos
livros que lhe dedicou. Traduziu para inglês o romance
Dom Casmurro. É também autor de dois
livros sobre Carlos Drummond de Andrade, Poesia e poética
de Carlos Drummond de Andrade (1981) e Influências
e impasses. Drummond e alguns contemporâneos (2003).
Conversa de
burros, banhos de mar e outras crónicas exemplares inclui
textos de
-MACHADO
DE ASSIS
“Pancrácio”,
“Vae Soli: ‘Gentil viúva...’, “Sermão do diabo”,
“Conversa de burros”, “Canção de Piratas”, “
O punhal de Martinha”, “Mancinelli / Mowat, “Abílio”.
-OLAVO
BILAC
“Haxixe”, “Sonho
africano”, “Os xerentes”, “Santos Dumont”, “Eça de Queirós”,
“A revolta da vacina”, “O morro do castelo”, “A Avenida Central”
-JOÃO
DO RIO
“O culto do mar”,
“As crianças que matam”, “As mariposas do luxo”, “O
barracão das rinhas”, “O velho mercado”, “O charuto
das Filipinas”
-LIMA BARRETO
“O morcego”, “A
lei”, “A volta”, “Não as matem”, “Quase doutor”, “Velhos
“apedidos” e velhos anúncios”, “Elogio da morte”, “O
encerramento do congresso”
-CARLOS
DRUMMOND DE ANDRADE
“Vila de utopia,
“Personagem”, “O sono”, “Capítulo do Gênesis”,
“Delícia de Manaus”, “Hoje não escrevo”
-RUBEM BRAGA
“A visita do casal”, “Buchada de
carneiro”, “São Cosme e São Damião”, “Lembranças
da fazenda”, “História triste de tuim”, “O mato”, “Em
Roma, durante a guerra”, “A traição das elegantes”
-FERNANDO SABINO
“A quem tiver carro”, “De mel a
pior”, “Como melhorar a memória”, “A falta que ela me
faz”, “O brasileiro, se eu fosse inglês”, “O tapete persa”,
“Dona Custódia”, “O juramento”
-PAULO MENDES CAMPOS
“Revolução”, “Dois
bons filhos”, “Aventura em Lisboa”, “Pai de família
sem plantação”, “Sobrevoando Ipanema”, “O saco
de confetes”, “Lua-de-mel”, “Duas damas distintas”
-STANISLAW PONTE PRETA
“Vamos acabar com esta folga”,
“A vaca e o câmbio”, “O anjo”, “Vovocídio”, “Barba,
cabelo e bigode”, “Teresinha e os três”, “Momento na
delegacia”, “Foi num clube aí”
- CLARICE LISPECTOR
“Die irae”, “Como uma corça”,
“Banhos de mar”, “O medo de errar”, “As caridades odiosas”,
“Cem anos de perdão”, “Tentativa de descrever sutilezas”,
“Dia das mães”.
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