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[Curso Breve de Literatura Brasileira]

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Memórias Póstumas de Brás Cubas

 
ISBN:972-795-111-2

Machado de Assis

340 pp.

€20,00

 

 

 

 

As Memórias Póstumas de Brás Cubas foram publicadas entre 15 de Março e 15 de Dezembro de 1880, na Revista Brasileira, do Rio de Janeiro. A primeira edição em livro surgiu em Janeiro de 1881. O romance viria a ter mais duas edições em vida de Machado, a última das quais (em 1889 e designada "quarta edição", por se considerar primeira a publicação em folhetim) inclui significativo " Prólogo do Autor".
Seguimos a edição da Livraria Garnier (Rio de Janeiro, 1988), com texto estabelecido por José Galante de Sousa. Mantivemos a ortografia brasileira.

Algum tempo hesitei se devia abrir estas memórias pelo princípio ou pelo fim, isto é, se poria em primeiro lugar o meu nascimento ou a minha morte. Suposto o uso vulgar seja começar pelo nascimento, duas considerações me levaram a adotar diferente método: a primeira é que eu não sou propriamente um autor defunto, mas um defunto autor, para quem a campa foi outro berço; a segunda é que o escrito ficaria assim mais galante e mais novo. Moisés, que também contou a sua morte, não a pôs no intróito, mas no cabo: diferença radical entre este livro e o Pentateuco.


Imprensa

[...] Abel Barros Baptista, no posfácio a Memórias Póstumas de Brás Cubas, considera-o o maior romancista de língua portuguesa. Trata-se de um juízo crítico que tem como critério fundamental a desconcertante modernidade deste romance (publicado em 1880), a sua «extravagância romanesca», a «novidade dos procedimentos de composição».
Tal extravagância começa logo pelo dispositivo da narração que põe um morto a contar as suas memórias. Mas isto é apenas parte de um jogo muito mais complexo e grandioso, cujos modelos anteriores ao século XIX, quando o romance nasce e se apresenta permeável à invenção desenfreada, à jubilosa liberdade que lhe é concedida pelo seu carácter «inessencial» e «aberto», para utilizarmos uma célebre definição de Lukács. Pelo uso do humor, pelas intempestivas injunções metanarrativas, pelo jogo indiscreto com o leitor, pela integração de uma grande heterogeneidade discursiva (que admite tanto a anedota como a palavra de sapiência e o registo filosofante), somos remetidos, sem dilações, para O
Dom Quixote, de Cervantes, para o Tristam Shandy, de Sterne, para o Jacques le Fataliste, de Diderot. Num «Prólogo ao Leitor», um destes vínculos fica, aliás, registado: «Trata-se na verdade, de uma obra difusa, na qual eu, Brás Cubas, se adotei a forma livre de um Sterne, ou de um Xavier de Maistre, não sei bem se lhe meti algumas rabugens de pessimismo. Pode ser. Obra de finado. Escrevi-a com a pena da galhofa e a tinta da melancolia». Em suma: Memórias Póstumas de Brás Cubas é uma exaltação daquilo a que Kundera chamou o «espírito do romance» e desdobra-se em consciência da sua forma - da forma romance na sua plena autonomia e na medida em que se realiza precisamente no contramovimento que tende a abolir os confins entre a arte e a vida. Brás Cubas faz parte de uma galeria de anti-heróis - invenções do espírito moderno - que traduziram no humor a relatividade das coisas humanas.

António Guerreiro, Expresso, 13.08.05

 

 
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