
As
Memórias Póstumas de Brás Cubas foram publicadas
entre 15 de Março e 15 de Dezembro de 1880, na Revista Brasileira,
do Rio de Janeiro. A primeira edição em livro surgiu em Janeiro de
1881. O romance viria a ter mais duas edições em vida de Machado, a
última das quais (em 1889 e designada "quarta edição", por se considerar
primeira a publicação em folhetim) inclui significativo " Prólogo do
Autor".
Seguimos a edição da Livraria Garnier (Rio de Janeiro, 1988), com texto
estabelecido por José Galante de Sousa. Mantivemos a ortografia brasileira. Algum
tempo hesitei se devia abrir estas memórias pelo princípio ou pelo
fim, isto é, se poria em primeiro lugar o meu nascimento ou a minha
morte. Suposto o uso vulgar seja começar pelo nascimento, duas considerações
me levaram a adotar diferente método: a primeira é que eu não sou propriamente
um autor defunto, mas um defunto autor, para quem a campa foi outro
berço; a segunda é que o escrito ficaria assim mais galante e mais
novo. Moisés, que também contou a sua morte, não a pôs no intróito,
mas no cabo: diferença radical entre este livro e o Pentateuco.
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Imprensa
[...] Abel Barros Baptista,
no posfácio a Memórias Póstumas de Brás Cubas, considera-o
o maior romancista de língua portuguesa. Trata-se de um juízo crítico
que tem como critério fundamental a desconcertante modernidade deste
romance (publicado em 1880), a sua «extravagância romanesca», a «novidade
dos procedimentos de composição».
Tal extravagância começa logo pelo dispositivo da narração
que põe
um morto a contar as suas memórias. Mas isto é apenas
parte de um jogo muito mais complexo e grandioso, cujos modelos anteriores
ao século
XIX, quando o romance nasce e se apresenta permeável à invenção
desenfreada, à jubilosa liberdade que lhe é concedida
pelo seu carácter
«inessencial»
e «aberto», para utilizarmos uma célebre definição
de Lukács. Pelo
uso do humor, pelas intempestivas injunções metanarrativas,
pelo jogo indiscreto com o leitor, pela integração de
uma grande heterogeneidade discursiva (que admite tanto a anedota como
a palavra de sapiência
e o registo filosofante), somos remetidos, sem dilações,
para O Dom
Quixote, de Cervantes, para o Tristam Shandy, de Sterne,
para o Jacques le Fataliste, de Diderot. Num «Prólogo
ao Leitor»,
um destes vínculos fica, aliás, registado: «Trata-se
na verdade, de uma obra difusa, na qual eu, Brás Cubas, se adotei
a forma livre de um Sterne, ou de um Xavier de Maistre, não
sei bem se lhe meti algumas rabugens de pessimismo. Pode ser. Obra
de finado. Escrevi-a com a pena da galhofa e a tinta da melancolia».
Em suma: Memórias Póstumas de Brás Cubas é
uma exaltação daquilo a que Kundera chamou o «espírito
do romance» e
desdobra-se em consciência
da sua forma - da forma romance na sua plena autonomia e na medida
em que se realiza precisamente no contramovimento que tende a abolir
os confins entre a arte e a vida. Brás Cubas faz parte de uma
galeria de anti-heróis - invenções do espírito
moderno - que traduziram no humor a relatividade das coisas humanas.
António
Guerreiro, Expresso, 13.08.05
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