Uma
antologia de contos de Machado de Assis há-de ser o descanso de qualquer antologiador: é praticamente
impossível fazê-la má. Breve ou alongada, comentada
ou sozinha, com critérios severos de selecção
ou dispensando-se de os explicitar, os contos, esses resistem bem,
e o conjunto fica sempre, ou quase sempre, competentemente representado.
Não se veja nisto exagero da qualidade superlativa, embora
se justifique. Se nem todos os contos de Machado de Assis são
excepcionais, o decisivo assenta noutra qualidade: serem exemplos
brilhantes do género literário "conto" e,
ao mesmo tempo, absolutamente singulares, como se Machado fosse o
inventor dum género por que mais ninguém se tivesse
interessado. Paradoxal que pareça, isto caracteriza os grandes
contistas, não se distinguirem por escreverem contos extraordinários
mas por inventarem a forma do conto. [...]
[O leitor ] percebeu
que os contos de Machado de Assis não cabem facilmente
em nenhumas das categorias rápidas, porque não são realistas
nem formalistas; muito menos exemplos do que agora se chama ficção
metaliterária. Cada conto é um caso teórico, decerto;
cada conto insere uma teoria implícita do conto, também se aceita.
Mas esse leitor pressente que se trata de algo mais, e quererá alguma
explicação
geral; menos técnica, menos literária, mais conforme com... a
vida. Provavelmente, a única disponível será esta: os
contos machadianos, parafraseando o filósofo, falam de homens que actuam
e representam a ruína
da interpretação para dizerem que o sentido da acção
humana não é dado, nem ilustrável, nem decifrável,
nem transmissível. Não porque a acção humana seja
destituída de sentido, antes porque lhe falta sempre a autoridade do
narrador. Mas essa é a própria razão de ser da emenda
de Séneca.
Abel Barros Baptista, "Posfácio.
A Emenda de Séneca - Machado de Assis e a forma do conto", Um
Homem Célebre. Antologia
de contos. |