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Os ensaios,
como os partidos, coligam-se muito em função das circunstâncias.
Coligação de avulsos reúne ensaios de crítica literária escritos entre 1997 e 2002 para diversos
jornais e revistas (sem que isso, no caso, signifique menor rigor ou menor
erudição). E ainda que esses ensaios se organizem em três grupos (literatura
comparada e teoria literária; literatura portuguesa moderna e contemporânea;
literatura brasileira recentemente em edição portuguesa) e incidam sobre
autores tão distintos quanto Paul de Man, Herberto Helder, Bernardo
Carvalho, Clarice Lispector, Saramago ou Eduardo Prado Coelho entre outros,
eles são avulsos porque não foram pensados para integrar algum livro e
também porque «quase sempre mediante encomenda, resultam de desvios no curso
principal do trabalho do autor, que aliás nesses cinco anos era
positivamente nenhum». Ao leitor atento não será estranho o tom
deliciosamente irónico e provocatório de Abel
Barros Baptista, talvez
o nosso mais brilhante ensaísta da sua especialidade. Também porque o leitor
atento não terá perdido a leitura excelente dessa obra estonteante, misto de
ficção, antologia poética, ensaio literário, retrato académico, romance
policial e comédia que é Importa-se de me emprestar o
barroco?, escrita em
parceria com Gustavo Rubim
(Livros Cotovia, 2003).
Dir-se-ia que, graças a uma
página escrita, a página de um ensaio, vivemos o que fazemos, que é lê-lo,
em perfeita homogeneidade com o que ele, Borges, faz, que é ler outros. Nem
touros nem naufrágios (o que não elimina necessariamente o sobressalto):
como se o único e mútuo propósito fosse encontrar novos livros para ler ou
aprender a ler melhor aqueles que já encontrámos. // E, diga-se o que se
disser, não há outra razão para ler ensaios, como não há outra razão para
escrevê-los.
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