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Biblioclasmo

De La Flor, Fernando

€25,00

   

O nosso tempo está marcado pela omnipresença ou imperialismo do regime tipográfico e realidades afins: a letra, o livro, a biblioteca, o leitor e a leitura, o autor e a escrita. Na óptica do ensaísta espanhol Fernando R. De la Flor, a cultura tipográfica, acossada pela cultura audiovisual em ascensão, está em franco declínio. Um declínio desconcertante e paradoxal: por um lado, a produção tipográfica atinge na actualidade a sua máxima extensão; por outro lado é correlativa do apocalipse do regime aurático da letra. A reprodutibilidade infinita da letra conduz, paradoxalmente, à exaustão do sentido, de todos os sentidos. E essa reprodutibilidade tem, como primeiro e definitivo motor histórico, a tipografia. O crescimento desta significa, então, e progressivamente, a negação do livro, e concomitantemente, da leitura e da escrita.
Fernando R. de la Flor faz observações particularmente importantes sobre a posição de determinadas instituições neste tempo crepuscular (a universidade, por exemplo). E propõe, neste seu ensaio, uma autêntica terapêutica compensatória deste estado de coisas. É neste sentido que devemos entender o seu esforço de recuperação de toda uma diacronia de monumentos biblioclastas. Como se diz num dos títulos de um capítulo: a defesa matizada do auto-de-fé (de livros, entenda-se).

Hoje, as ainda assim chamadas “obras de arte”não recebem adulação extrema a não ser dos ignorantes; e, pelo contrário, jamais foram tão vituperadas as produções de ordem simbólica, jamais suscitaram tanta desconfiança, nunca foram menos atendidas, e menos compreendidas também. Concluindo: é difícil tê-las visto antes tão menosprezadas e esquecidas. Dentro do mercado da poesia, um facto material evidencia o desinteresse activo pela obra de hoje, chegando este a mostrar-se de modo obsceno na quantificação das tiragens que os nossos poetas conhecem, incluindo os mais célebres. As estatísticas depressoras que o livre comércio procura dizem-nos que, apesar de a poesia ser já só para os poetas, nem os poetas lêem os poetas. Neste terreno [...] o número dos que lêem já não pode aumentar mais, daqui em diante já só aumentará o número dos que querem ser lidos.

 

Breve entrevista com Fernando R. De La Flor (por Pedro Serra):

P. Em Biblioclasmo.Por uma prática crítica da lecto-escrita debruças-te sobre a deriva da cultura tipográfica. Uma cultura cujos protagonistas e produtos diagnosticas encontrarem-se num estado letárgico de excessos vários. De modo destacado, o ensaio incide sobre o Livro, as Bibliotecas, a Universidade e a variada fauna humana da curva descendente do império da letra impressa. Reflexão céptica e negativa, propõe-nos como paliativo para a voragem da explosão epigonal da cultura tipográfica (que exige, no caso concreto do domínio literário, um consumo galopante de livros - mais sopa de letras do que literatura, na verdade), um desinvestimento na energia posta na lecto-escrita. Ao mesmo tempo, propões uma revisão da história triunfalista da literatura. Ou melhor, convidas à reescrita dessa história a partir dos seus monumentos negativos: a tradição esquecida do fastio das letras e dos livros. Por outras palavras, configuras uma arqueologia da (subterrânea) biblioclastia, no que constitui, no fundo, um apelo à memória insuflada de necessário esquecimento. “Biblioclasmo”é um nome para este par memória/esquecimento?

R. Efectivamente, proponho o meu livro como uma espécie de “tratado de prudência”, como um antigo manual ou até uma “arte de bem ler”, ao estilo dos manuais que abundavam nos começos do Renascimento, quando o entusiasmo pela expansão da tecnologia da imprensa deparou com as reservas e cepticismo daqueles que souberam ver, nesse momento, que cada gesto de progresso oculta também, na verdade, uma ameaça. Memória e esquecimento, eis aqui um exercício de difícil equilíbrio que cada sujeito, ao agir, deve ponderar cuidadosamente. Constantemente, a realidade exterior empurra-nos para as operações de mais-valia e entesouramento que podemos assimilar à memória; constantemente também, no íntimo de todos nós, algo responde com a estratégia (divina) do esquecimento. É importante manter ambos os níveis, para não produzir aquilo que uma ingestão desmesurada de tipografía consegue em nós: desalojar o silêncio.

P. O sub-título do teu livro, “Por uma prática crítica da lecto-escrita”, expõe claramente o impulso “resistente”, de resistência crítica, que propões. Esse lugar de onde se resiste é um lugar em que persiste a utilidade dos livros (uns poucos apenas) para a vida, e já só é concebível sendo mediado pelo gesto biblioclástico. Ser crítico assenta no agonismo deste paradoxo?

R. O leitor, tal como o concebo (isto é, o leitor que eu gostaria de ser um dia), é com efeito um rebelde, um descrente, um crítico com óculos e que inaugura sempre cada uma das suas leituras com um gesto de suspeita, decidido a suspender, ao primeiro sinal de decepção, o seu trabalho. Como se constata, uma imagem muito longínqua dessa leitura confortável e do conforto que se tornou o reclame utópico de tal prática. O paradoxo funcional expresso aí é o de que se deve ler com a esperança de não ter que ler, na própria iminência de um fim próximo da leitura, sonhando na verdade com o momento em que o acto de ler possa ser abandonado.

P. O teu ensaio é portador de uma biblioteca de leituras e também de um museu de imagens, de imagens em que o livro e o leitor se revêem em figuras certamente incómodas. Palavra e imagem sustentam idêntica massa crítica? Ou a palavra escrita ostenta, neste particular, o privilégio?

R. Pretendi escrever um livro em que a força de algumas das imagens pudesse, inclusivamente, anular a dimensão discursivo-textual. Ler imagens perfila-se, no fim de contas, como algo fascinante e que acaba por implicar estratos mais profundos do que aqueles que pode revelar a escrita. As duas séries, a icónica e a textual, que convivem no meu livro, confluem, na verdade, no mesmo objectivo inquietante: revelar um aspecto perigoso que vive no seio da prática desregulada da lecto-escrita; convencer os leitores-espectadores de que o seu equilíbrio se encontra, hoje mais do que nunca, ameaçado. O meu discurso, em grande medida historiográfico, demonstra que tal ameaça foi concebida desse modo, e que ela própria tem sido matéria abundante de reflexão, e, no caso das imagens, serviu para compor de forma muito persuasiva o hieróglifo desta situação.

P. Atravessa a argumentação de Biblioclasmo. Por uma prática crítica da lecto-escrita a figura de um intelectual que reconcilia pensamento e acção. Um professor universitário, com a burocratização e racionalização da vida académica, pode ser tal intelectual? Há “vida”na Universidade ou para além dela?

R. A universidade, hoje mais do que nunca, é um espaço de riscos extraordinários, um lugar onde se produzem e se instigam práticas e atitudes que podem ser vinculadas claramente à alienação e à perda da polifonia que sustenta o humano. A confiança cega completamente depositada na massa tipográfica acumulada, revela o seu aspecto talvez inumano nesse imperativo da necessidade de a consumir até ao fim. Hoje o horizonte intelectual permanece vinculado exclusivamente a este trabalho, que na verdade pode consumir por si só uma vida inteira. A universidade aspira à universalidade demente, é o reino dos pantagruéis, dos Bouvard e Pécuchet, e talvez também do protagonista da náusea sartreana, dispostos todos eles a empregar a vida a ler e ler e ler.


Fernando R. de la Flor, um dos principais e mais prestigiosos intelectuais espanhóis que se dedicam ao estudo do Barroco na actualidade, é Doutor em Ciências da Informação pela Universidade Complutense de Madrid e Professor Catedrático de Literatura Espanhola da Universidade de Salamanca. sua obra é constituída por numerosos estudos, de que destacamos Teatro de la memoria (1988), Emblemas. Lecturas de la imagen simbólica (1995) e Biblioclasmo. Por una práctica crítica de la lecto-escritura (1996), este último um conjunto de ensaios que valeu ao autor o prestigioso prémio «Fray Luis de León» de ensaio referente a 1997 e agora editado pelas Edições Cotovia. Mais recentemente, publicou La península metafísica. Arte, literatura y pensamiento en la España de la Contrarreforma (1999) e Barroco. Representación e ideología en el mundo hispánico (2002).

O percurso de Fernando R. de la Flor está marcado pelo pioneirismo e pela originalidade das suas propostas, sempre assentes numa perspectiva multidisplinar, cruzando as fronteiras dos discursos, sempre escavando o passado em função do que nele interpela o presente. Teatro de la memoria, a que uma segunda edição (1996) veio reiterar publicamente a qualidade da investigação aí levada a cabo há dez anos, é constituído por um conjunto de ensaios - apoiados numa notável erudição e conhecimento profundo do siglo de oro - que se debruçam sobre a Retórica clássica e muito especificamente sobre a mnemotécnica espanhola dos séculos XVII e XVIII. Novidade no tema e na perspectiva interdisciplinar do enfoque. Em Emblemas. Lecturas de la imagen simbólica, o autor ampliaria o domínio de análise encetado. Dedica-se aí ao estudo da imagem simbólica, mais especificamente ao discurso que suporta a sua interpretação. Três domínios são abarcados: o da retórica (enquanto hermenêutica do icónico), o da compositio loci inaciana e o da emblemática vanguardista. A semiologia alia-se à iconologia num estudo que tem como coluna vertebral uma história que se estende até ao presente, um presente cuja colonização pela aliança do icónico e do verbal Fernando R. de la Flor chama ‘logoiconosfera’.

A perspectiva multidisciplinar que caracteriza todos os seus ensaios sobressai em La península metafísica. Arte, literatura y pensamiento en la España de la Contrarreforma. Um livro polémico porquanto visa reconsiderar a singularidade de uma história cultural peninsular, em detrimento de uma historiografia hegemónica apostada no ‘branqueamento triunfalista do passado espanhol. A cultura hispânica dos séculos XVI e XVII, a cultura dos siglos de oro, é revisitada mostrando como os síntomas que a definem –da frustração melancólica aos devaneios quiméricos –nos devolvem um produção simbólica marcada por uma complexa ‘crise da representação’.
O livro mais recente, Barroco. Representación e ideología en el mundo hispánico (2002), foi justamente saudado como uma ampliação, apostada numa profunda revisão hermenêutica, do estudo ‘clássico’de José Antonio Maravall, La cultura del barroco (1975). Vinte-e-cinco anos depois, a obra de Fernando R. de la Flor revê a cultura barroca enquanto ‘cultura de Estado’, procurando pautas de leitura alternativas em relação ao materialismo e positivismo históricos. Regresso ao Barroco e regresso do Barroco, concretamente de um Barroco que recupera a sua negatividade, os seus paradoxos e o seu intrínseco agonismo.
 

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