O
nosso tempo
está marcado pela omnipresença ou imperialismo
do regime tipográfico e realidades afins: a letra, o livro,
a biblioteca, o leitor e a leitura, o autor e a escrita. Na óptica
do ensaísta espanhol Fernando R. De la Flor, a cultura tipográfica,
acossada pela cultura audiovisual em ascensão, está em
franco declínio. Um declínio desconcertante e paradoxal:
por um lado, a produção tipográfica atinge na
actualidade a sua máxima extensão; por outro lado é correlativa
do apocalipse do regime aurático da letra. A reprodutibilidade
infinita da letra conduz, paradoxalmente, à exaustão
do sentido, de todos os sentidos. E essa reprodutibilidade tem, como
primeiro e definitivo motor histórico, a tipografia. O crescimento
desta significa, então, e progressivamente, a negação
do livro, e concomitantemente, da leitura e da escrita.
Fernando R. de la Flor faz observações particularmente importantes
sobre a posição de determinadas instituições neste
tempo crepuscular (a universidade, por exemplo). E propõe, neste seu ensaio,
uma autêntica terapêutica compensatória deste estado de coisas. É neste
sentido que devemos entender o seu esforço de recuperação
de toda uma diacronia de monumentos biblioclastas. Como se diz num dos títulos
de um capítulo: a defesa matizada do auto-de-fé (de livros,
entenda-se). Hoje, as ainda
assim chamadas “obras de arte”não recebem adulação
extrema a não ser dos ignorantes; e, pelo contrário,
jamais foram tão vituperadas as produções de ordem
simbólica, jamais suscitaram tanta desconfiança, nunca
foram menos atendidas, e menos compreendidas também. Concluindo: é difícil
tê-las visto antes tão menosprezadas e esquecidas. Dentro
do mercado da poesia, um facto material evidencia o desinteresse activo
pela obra de hoje, chegando este a mostrar-se de modo obsceno na quantificação
das tiragens que os nossos poetas conhecem, incluindo os mais célebres.
As estatísticas depressoras que o livre comércio procura
dizem-nos que, apesar de a poesia ser já só para os poetas,
nem os poetas lêem os poetas. Neste terreno [...] o número
dos que lêem já não pode aumentar mais, daqui em
diante já só aumentará o número dos que
querem ser lidos.
Breve entrevista com Fernando
R. De La Flor (por Pedro Serra): P. Em Biblioclasmo.Por
uma prática crítica da lecto-escrita debruças-te
sobre a deriva da cultura tipográfica. Uma cultura cujos protagonistas
e produtos diagnosticas encontrarem-se num estado letárgico
de excessos vários. De modo destacado, o ensaio incide sobre
o Livro, as Bibliotecas, a Universidade e a variada fauna humana da
curva descendente do império da letra impressa. Reflexão
céptica e negativa, propõe-nos como paliativo para a
voragem da explosão epigonal da cultura tipográfica (que
exige, no caso concreto do domínio literário, um consumo
galopante de livros - mais sopa de letras do que literatura, na verdade),
um desinvestimento na energia posta na lecto-escrita. Ao mesmo tempo,
propões uma revisão da história triunfalista da
literatura. Ou melhor, convidas à reescrita dessa história
a partir dos seus monumentos negativos: a tradição esquecida
do fastio das letras e dos livros. Por outras palavras, configuras
uma arqueologia da (subterrânea) biblioclastia, no que constitui,
no fundo, um apelo à memória insuflada de necessário
esquecimento. “Biblioclasmo”é um nome para este
par memória/esquecimento?
R. Efectivamente, proponho
o meu livro como uma espécie de “tratado de prudência”,
como um antigo manual ou até uma “arte de bem ler”,
ao estilo dos manuais que abundavam nos começos do Renascimento,
quando o entusiasmo pela expansão da tecnologia da imprensa
deparou com as reservas e cepticismo daqueles que souberam ver, nesse
momento, que cada gesto de progresso oculta também, na verdade,
uma ameaça. Memória e esquecimento, eis aqui um exercício
de difícil equilíbrio que cada sujeito, ao agir, deve
ponderar cuidadosamente. Constantemente, a realidade exterior empurra-nos
para as operações de mais-valia e entesouramento que
podemos assimilar à memória; constantemente também,
no íntimo de todos nós, algo responde com a estratégia
(divina) do esquecimento. É importante manter ambos os níveis,
para não produzir aquilo que uma ingestão desmesurada
de tipografía consegue em nós: desalojar o silêncio.
P. O sub-título
do teu livro, “Por uma prática crítica da lecto-escrita”,
expõe claramente o impulso “resistente”, de resistência
crítica, que propões. Esse lugar de onde se resiste é um
lugar em que persiste a utilidade dos livros (uns poucos apenas) para
a vida, e já só é concebível sendo mediado
pelo gesto biblioclástico. Ser crítico assenta no agonismo
deste paradoxo?
R. O leitor, tal como
o concebo (isto é, o leitor que eu gostaria de ser um dia), é com
efeito um rebelde, um descrente, um crítico com óculos
e que inaugura sempre cada uma das suas leituras com um gesto de suspeita,
decidido a suspender, ao primeiro sinal de decepção,
o seu trabalho. Como se constata, uma imagem muito longínqua
dessa leitura confortável e do conforto que se tornou o reclame
utópico de tal prática. O paradoxo funcional expresso
aí é o de que se deve ler com a esperança de não
ter que ler, na própria iminência de um fim próximo
da leitura, sonhando na verdade com o momento em que o acto de ler
possa ser abandonado.
P. O teu ensaio é portador
de uma biblioteca de leituras e também de um museu de imagens,
de imagens em que o livro e o leitor se revêem em figuras certamente
incómodas. Palavra e imagem sustentam idêntica massa crítica?
Ou a palavra escrita ostenta, neste particular, o privilégio?
R. Pretendi escrever
um livro em que a força de algumas das imagens pudesse, inclusivamente,
anular a dimensão discursivo-textual. Ler imagens perfila-se,
no fim de contas, como algo fascinante e que acaba por implicar estratos
mais profundos do que aqueles que pode revelar a escrita. As duas séries,
a icónica e a textual, que convivem no meu livro, confluem,
na verdade, no mesmo objectivo inquietante: revelar um aspecto perigoso
que vive no seio da prática desregulada da lecto-escrita; convencer
os leitores-espectadores de que o seu equilíbrio se encontra,
hoje mais do que nunca, ameaçado. O meu discurso, em grande
medida historiográfico, demonstra que tal ameaça foi
concebida desse modo, e que ela própria tem sido matéria
abundante de reflexão, e, no caso das imagens, serviu para compor
de forma muito persuasiva o hieróglifo desta situação.
P. Atravessa a
argumentação de Biblioclasmo. Por uma prática
crítica da lecto-escrita a figura de um intelectual que reconcilia
pensamento e acção. Um professor universitário,
com a burocratização e racionalização da
vida académica, pode ser tal intelectual? Há “vida”na
Universidade ou para além dela?
R. A universidade, hoje
mais do que nunca, é um espaço de riscos extraordinários,
um lugar onde se produzem e se instigam práticas e atitudes
que podem ser vinculadas claramente à alienação
e à perda da polifonia que sustenta o humano. A confiança
cega completamente depositada na massa tipográfica acumulada,
revela o seu aspecto talvez inumano nesse imperativo da necessidade
de a consumir até ao fim. Hoje o horizonte intelectual permanece
vinculado exclusivamente a este trabalho, que na verdade pode consumir
por si só uma vida inteira. A universidade aspira à universalidade
demente, é o reino dos pantagruéis, dos Bouvard e Pécuchet,
e talvez também do protagonista da náusea sartreana,
dispostos todos eles a empregar a vida a ler e ler e ler.
Fernando R. de la Flor, um dos principais e mais prestigiosos intelectuais
espanhóis que se dedicam ao estudo do Barroco na actualidade, é Doutor
em Ciências da Informação pela Universidade Complutense
de Madrid e Professor Catedrático de Literatura Espanhola da Universidade
de Salamanca. sua obra é constituída por numerosos estudos, de
que destacamos Teatro de la memoria (1988), Emblemas. Lecturas
de la imagen simbólica (1995) e Biblioclasmo. Por una práctica crítica
de la lecto-escritura (1996), este último um conjunto de ensaios que
valeu ao autor o prestigioso prémio «Fray Luis de León» de
ensaio referente a 1997 e agora editado pelas Edições Cotovia.
Mais recentemente, publicou La península metafísica. Arte,
literatura y pensamiento en la España de la Contrarreforma (1999) e Barroco.
Representación
e ideología en el mundo hispánico (2002).
O
percurso de Fernando R. de la Flor está marcado pelo pioneirismo e pela
originalidade das suas propostas, sempre assentes numa perspectiva multidisplinar,
cruzando as fronteiras dos discursos, sempre escavando o passado em função
do que nele interpela o presente. Teatro de la memoria, a que uma segunda edição
(1996) veio reiterar publicamente a qualidade da investigação
aí levada a cabo há dez anos, é constituído por
um conjunto de ensaios - apoiados numa notável erudição
e conhecimento profundo do siglo de oro - que se debruçam sobre a Retórica
clássica e muito especificamente sobre a mnemotécnica espanhola
dos séculos XVII e XVIII. Novidade no tema e na perspectiva interdisciplinar
do enfoque. Em Emblemas. Lecturas de la imagen simbólica, o autor ampliaria
o domínio de análise encetado. Dedica-se aí ao estudo
da imagem simbólica, mais especificamente ao discurso que suporta a
sua interpretação. Três domínios são abarcados:
o da retórica (enquanto hermenêutica do icónico), o da
compositio loci inaciana e o da emblemática vanguardista. A semiologia
alia-se à iconologia num estudo que tem como coluna vertebral uma história
que se estende até ao presente, um presente cuja colonização
pela aliança do icónico e do verbal Fernando R. de la Flor chama ‘logoiconosfera’.
A
perspectiva multidisciplinar que caracteriza todos os seus ensaios sobressai
em La península metafísica. Arte, literatura y pensamiento en
la España de la Contrarreforma. Um livro polémico porquanto visa
reconsiderar a singularidade de uma história cultural peninsular, em
detrimento de uma historiografia hegemónica apostada no ‘branqueamento triunfalista
do passado espanhol. A cultura hispânica dos séculos XVI e XVII,
a cultura dos siglos de oro, é revisitada mostrando como os síntomas
que a definem –da frustração melancólica aos devaneios
quiméricos –nos devolvem um produção simbólica
marcada por uma complexa ‘crise da representação’.
O livro mais recente, Barroco. Representación e ideología en el
mundo hispánico (2002), foi justamente saudado como uma ampliação,
apostada numa profunda revisão hermenêutica, do estudo ‘clássico’de
José Antonio Maravall, La cultura del barroco (1975). Vinte-e-cinco anos
depois, a obra de Fernando R. de la Flor revê a cultura barroca enquanto ‘cultura
de Estado’, procurando pautas de leitura alternativas em relação
ao materialismo e positivismo históricos. Regresso ao Barroco e regresso
do Barroco, concretamente de um Barroco que recupera a sua negatividade, os seus
paradoxos e o seu intrínseco agonismo.
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