De pai libanês,
mãe síria, tendo crescido no Líbano, mudando-se
mais tarde para Paris, Samir Kassir (1960-2005), jornalista, historiador
e professor de Ciências Políticas na Universidade Saint-Joseph,
apresenta em Considerações sobre a desgraça árabe
(2004) sete breves capítulos sobre o povo árabe - o olhar
deste povo relativamente a si próprio, o efeito do olhar alheio
que desconfia, ou que condescende sem se ocultar - manifestando, claro,
parte das suas convicções.
Laico, empenhado na defesa da democracia árabe, não
partilhando no entanto a perspectiva dos nacionalistas libaneses,
e considerando-se ocidentalizado,
Kassir, cuja obra foi escrita em francês, questiona a “desgraça árabe”.
Existirá uma desgraça particular ao povo árabe? Quem é abrangido?
De quando data? Que evolução teve para que se chegasse ao estado
actual? Que evolução se espera? Entre o desespero, a vitimização
e a impotência de que, segundo o autor, só os adeptos do islamismo
radical não têm rasto aparente, que futuro poderá almejar
o povo árabe? Que papel poderá desempenhar a religião
islâmica
na “desgraça”?
Não é fácil
ser árabe nos nossos dias. Seja para onde for que nos voltemos,
do Golfo ao Oceano, o quadro parece sombrio, e mais ainda se o compararmos
com outras regiões do mundo, mesmo as mais desprovidas. Contudo,
esta “desgraça” nem sempre foi. Para além da idade de ouro
da civilização árabo-muçulmana, houve um
tempo não muito distante em que os árabes, de novo actores
da sua história, podiam projectar-se no futuro com optimismo.
Como é que se chegou ao marasmo actual? Como é que se conseguiu
fazer crer aos árabes que não têm outro futuro para
além do que lhes destina um milenarismo mórbido? Como é que
se pôde menosprezar uma cultura viva, para comungar no culto da desgraça
e da morte?
Sem pretender propor uma receita mágica para sair da desgraça,
Samir Kassir mostra que é possível fazê-lo sublinhando que
nada, e muito menos a sua herança cultural, deverá impedir os árabes
de voltarem a ser sujeitos da sua própria história.
Samir Kassir, in Considerações
sobre a desgraça árabe
Samir Kassir foi historiador e jornalista, professor no Instituto de Ciências Políticas
da Universidade Saint-Joseph. Era reputado pelos seus editoriais publicados no
grande jornal diário de Beirute, An-Nahar. A sua Histoire de Beyrouth (Fayard, 2003) foi saudada como uma obra de referência. Foi assassinado
em 2 de Junho de 2005, em Beirute.
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