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Orientalismo

Said, Edward

€30,00

  

 

 

Orientalismo, texto canónico dos ‘estudos culturais’ e o mais conhecido livro de um dos mais brilhantes críticos literários da segunda metade do século XX (Financial Times, Setembro 1998), é pela primeira vez publicado em Portugal pouco depois de comemorar 25 anos. Nele se analisa a história e a natureza das atitudes ocidentais face ao Oriente, considerando o orientalismo como uma poderosa criação ideológica europeia – uma maneira encontrada pelos escritores, pensadores e administradores coloniais para lidar com o ‘Outro’ que as crenças, os usos e a cultura orientais representam. Esta abordagem parte das obras de autores como Homero, Nerval, Flaubert, Disraeli, Kipling entre muitos outros, cujas descrições imaginativas em muito contribuíram para a ideia exótica e romântica que o Ocidente tem do Oriente. A partir da sua própria experiência como árabe palestiniano que viveu no Ocidente desde muito cedo, Said avalia a forma como estas ideias podem ser um reflexo do imperialismo e racismo europeus. Orientalismo é um livro estimulante, interdisciplinar, persuasivo e brilhantemente escrito.

Como representamos outra cultura? O que é outra cultura? Será que a noção de uma cultura distinta (ou raça, ou religião, ou civilização) é útil, ou será que sempre se envolve em auto-satisfação (quando analisamos a nossa) ou em hostilidade e agressão (quando analisamos a ‘outra’)? As diferenças culturais, religiosas e raciais importam mais que as categorias sócio-económicas ou que as categorias político-históricas? Como é que as ideias chegam a adquirir autoridade, ‘normalidade’ e até mesmo o estatuto de verdades ‘naturais’? Qual é o papel do intelectual? Existe para dar validade à cultura e ao estado a que pertence? Que importância deve o intelectual atribuir a uma consciência crítica independente, a uma consciência crítica de oposição? Estas são algumas das questões que esta obra de referência universal procura elucidar.

Fonte das civilizações e línguas europeias, o Oriente é também seu adversário cultural e uma das imagens mais profundas e recorrentes do Outro, no que ajudou a definir a Europa (ou o Ocidente) como contraposição à sua imagem. Porém, o Oriente não é um facto inerte da natureza: não está ali, do mesmo modo que o Ocidente também não está ali. Enquanto entidades geográficas e culturais – para já não dizer históricas – Oriente e Ocidente são criações do homem. O Oriente não é o ‘Oriente’ – é ‘o Oriente tal como foi orientalizado’. Na análise de Said, esse processo tem na sua essência a distinção inalienável entre a superioridade ocidental e a inferioridade oriental, distinção essa que se foi aprofundando e endurecendo ao longo da história, como este livro pretende demonstrar. O orientalismo pode, portanto, ser analisado como uma instituição corporativa que se relaciona com o Oriente emitindo juízos sobre ele, autorizando visões dele, descrevendo-o, ensinando-o, colonizando-o, governando-o. Em suma: será um estilo ocidental para dominar, reestruturar e exercer autoridade sobre o Oriente.

Mas podemos nós dividir a realidade humana, como efectivamente ela parece estar dividida, em culturas, histórias, tradições, sociedades e raças claramente diferentes entre si, e continuar a viver assumindo as consequências dessa divisão? Existe um modo de evitar a hostilidade manifestada pela divisão dos homens entre ‘nós’ (ocidentais) e ‘eles’ (orientais)?

Um dos principais dogmas do orientalismo é a absoluta e sistemática diferença entre o Ocidente – racional, desenvolvido, humanitário e superior – e o Oriente – aberrante, subdesenvolvido e inferior. Outro dogma é o de que as abstracções sobre o Oriente, especialmente as que se baseiam em textos que representam uma civilização oriental ‘clássica’, são sempre preferíveis aos casos directos extraídos das realidades orientais modernas. Um terceiro dogma é o de que o Oriente é eterno, uniforme e incapaz de se definir a si próprio; considera-se, consequentemente, que um vocabulário altamente generalizado e sistemático para descrever o Oriente de um ponto de vista ocidental é inevitável e, inclusive, cientificamente ‘objectivo’. Um quarto dogma é o de que, no fundo, o Oriente é algo a ser temido, ou algo a ser controlado através da pacificação, investigação e desenvolvimento, ou ocupação pura e simples sempre que tal seja possível. Estes estereótipos foram necessariamente reforçados no mundo electrónico pós-moderno de hoje; a televisão e todos os recursos mediáticos obrigam a uma informação cada vez mais estandardizada, que inunda a imprensa e a mente popular. O que acaba por vir sempre ao de cima é a presunção de que o consumidor ocidental, embora pertença a uma minoria numérica, tem o direito de possuir ou de gastar (ou de ambos) a maioria dos recursos mundiais; na verdade acredita ser prerrogativa humana sua não apenas administrar o mundo não-branco, mas também possuí-lo, apenas porque, por definição, esse mundo não-branco não é tão humano quanto ‘nós’ somos.

Que energias intelectuais, estéticas, eruditas e culturais participaram na elaboração de uma tradição imperialista como a orientalista? Como puderam a filologia, a história, a biologia, a teoria económica e política, a literatura servir a visão que o mundo imperialista teve do orientalismo? Que mudanças, refinamentos e mesmo revoluções ocorrem no seio do orientalismo? Qual é o significado da originalidade, da continuidade, da individualidade, neste contexto? Como se transmite e reproduz o orientalismo de uma época para outra?

Said considera que o fracasso do orientalismo foi tanto intelectual como humano: porque, ao adoptar uma irredutível oposição face a uma parte do mundo que considerava ser alheia à sua, o orientalismo não foi capaz de se identificar com a experiência humana, nem foi capaz de a ver como experiência humana.


Edward W. Said nasceu na Palestina, em Jerusalém, a 1 de Novembro de 1935. Com o estabelecimento do estado de Israel, parte com a família para o exílio, passando pelo Egipto e pelo Líbano. Aos 17 anos vai para os Estados Unidos. Licenciou-se em Princeton e obteve o grau de doutor em literatura comparada pela Universidade de Harvard. Os seus primeiros livros são Joseph Conrad and the Fiction of Autobiography (1966) e Beginnings (1975). Desenvolveu a sua actividade docente como professor de literatura comparada na Universidade de Columbia. A partir da Guerra dos Seis Dias, em 1967, empenha-se na defesa da causa palestiniana nos EUA. Será Membro do Conselho Nacional Palestiniano a partir de 1977, tendo vindo a abandonar a instituição em 1991. Depois de Orientalism (1978), publica The Question of Palestine (1979), Covering Islam (1981), The World, the Text, and the Critic (1983) e After the Last Sky (1986). No âmbito da musicologia publica Musical Elaborations (1991), e em Culture and Imperialism (1993) amplia o estudo do discurso colonialista. Em 1993 posiciona-se abertamente contra os Acordos de Oslo. No ano seguinte publica The Politics of Dispossession, a que se seguiriam Representations of the Intellectual (1994) Peace and Its Discontents (1995). Só regressaria à Palestina 45 anos depois do exílio. Publicou ainda, entre outros livros, a autobiografia Out of Place (1999), The End of the Peace Process (2000) e Reflections on Exile and Other Essays (2000). Morreu aos 67 anos, em Nova Iorque, a 24 de Setembro de 2003.
 
 

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