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Orientalismo, texto
canónico dos ‘estudos
culturais’ e o mais conhecido livro de um dos mais brilhantes críticos
literários da segunda metade do século XX (Financial Times,
Setembro 1998),
é pela primeira vez publicado em Portugal pouco depois de comemorar 25 anos.
Nele se analisa a história e a natureza das atitudes ocidentais face ao
Oriente, considerando o orientalismo como uma poderosa criação ideológica
europeia – uma maneira encontrada pelos escritores, pensadores e
administradores coloniais para lidar com o ‘Outro’ que as crenças,
os usos e a cultura orientais representam. Esta abordagem parte das
obras de autores
como Homero, Nerval, Flaubert, Disraeli, Kipling entre muitos outros,
cujas descrições imaginativas em muito contribuíram para a ideia exótica
e romântica que o Ocidente tem do Oriente. A partir da sua própria
experiência
como árabe palestiniano que viveu no Ocidente desde muito cedo, Said
avalia a forma como estas ideias podem ser um reflexo do imperialismo
e racismo
europeus. Orientalismo é um livro estimulante, interdisciplinar, persuasivo
e brilhantemente escrito.
Como representamos outra cultura? O que é outra cultura? Será que a
noção de uma cultura distinta (ou raça, ou religião, ou civilização) é útil,
ou será que sempre se envolve em auto-satisfação (quando analisamos a nossa)
ou em hostilidade e agressão (quando analisamos a ‘outra’)? As diferenças
culturais, religiosas e raciais importam mais que as categorias
sócio-económicas ou que as categorias político-históricas? Como é que as
ideias chegam a adquirir autoridade, ‘normalidade’ e até mesmo o estatuto de
verdades ‘naturais’? Qual é o papel do intelectual? Existe para dar validade
à cultura e ao estado a que pertence? Que importância deve o intelectual
atribuir a uma consciência crítica independente, a uma consciência crítica
de oposição? Estas são algumas das questões que esta obra de referência
universal procura elucidar.
Fonte das civilizações e línguas europeias, o Oriente é também seu
adversário cultural e uma das imagens mais profundas e recorrentes do Outro,
no que ajudou a definir a Europa (ou o Ocidente) como contraposição à sua
imagem. Porém, o Oriente não é um facto inerte da natureza: não está ali,
do mesmo modo que o Ocidente também não está ali. Enquanto entidades
geográficas e culturais – para já não dizer históricas – Oriente e Ocidente
são criações do homem. O Oriente não é o ‘Oriente’ – é ‘o Oriente tal como
foi orientalizado’. Na análise de Said, esse processo tem na sua essência a
distinção inalienável entre a superioridade ocidental e a inferioridade
oriental, distinção essa que se foi aprofundando e endurecendo ao longo da
história, como este livro pretende demonstrar. O orientalismo pode,
portanto, ser analisado como uma instituição corporativa que se relaciona
com o Oriente emitindo juízos sobre ele, autorizando visões dele,
descrevendo-o, ensinando-o, colonizando-o, governando-o. Em suma: será um
estilo ocidental para dominar, reestruturar e exercer autoridade sobre
o
Oriente.
Mas podemos nós dividir a realidade humana, como efectivamente ela parece
estar dividida, em culturas, histórias, tradições, sociedades e raças
claramente diferentes entre si, e continuar a viver assumindo as
consequências dessa divisão? Existe um modo de evitar a hostilidade
manifestada pela divisão dos homens entre ‘nós’ (ocidentais) e ‘eles’
(orientais)?
Um dos principais dogmas do orientalismo é a absoluta e sistemática
diferença entre o Ocidente – racional, desenvolvido, humanitário e superior
– e o Oriente – aberrante, subdesenvolvido e inferior. Outro dogma é o de
que as abstracções sobre o Oriente, especialmente as que se baseiam em
textos que representam uma civilização oriental ‘clássica’, são sempre
preferíveis aos casos directos extraídos das realidades orientais modernas.
Um terceiro dogma é o de que o Oriente é eterno, uniforme e incapaz de se
definir a si próprio; considera-se, consequentemente, que um vocabulário
altamente generalizado e sistemático para descrever o Oriente de um ponto de
vista ocidental é inevitável e, inclusive, cientificamente ‘objectivo’. Um
quarto dogma é o de que, no fundo, o Oriente é algo a ser temido, ou algo a
ser controlado através da pacificação, investigação e desenvolvimento, ou
ocupação pura e simples sempre que tal seja possível. Estes estereótipos
foram necessariamente reforçados no mundo electrónico pós-moderno de hoje; a
televisão e todos os recursos mediáticos obrigam a uma informação cada vez
mais estandardizada, que inunda a imprensa e a mente popular. O que acaba
por vir sempre ao de cima é a presunção de que o consumidor ocidental,
embora pertença a uma minoria numérica, tem o direito de possuir ou de
gastar (ou de ambos) a maioria dos recursos mundiais; na verdade acredita
ser prerrogativa humana sua não apenas administrar o mundo não-branco, mas
também possuí-lo, apenas porque, por definição, esse mundo não-branco não é
tão humano quanto ‘nós’ somos.
Que energias intelectuais, estéticas, eruditas e culturais participaram na
elaboração de uma tradição imperialista como a orientalista? Como puderam a
filologia, a história, a biologia, a teoria económica e política, a
literatura servir a visão que o mundo imperialista teve do orientalismo? Que
mudanças, refinamentos e mesmo revoluções ocorrem no seio do orientalismo?
Qual é o significado da originalidade, da continuidade, da individualidade,
neste contexto? Como se transmite e reproduz o orientalismo de uma época
para outra?
Said considera que o fracasso do orientalismo foi tanto intelectual
como humano: porque, ao adoptar uma irredutível oposição face a uma parte do
mundo que considerava ser alheia à sua, o orientalismo não foi capaz de se
identificar com a experiência humana, nem foi capaz de a ver como
experiência humana.
Edward W. Said nasceu na Palestina, em Jerusalém, a 1 de
Novembro de 1935. Com o estabelecimento do estado de Israel, parte com a
família para o exílio, passando pelo Egipto e pelo Líbano. Aos 17 anos vai
para os Estados Unidos. Licenciou-se em Princeton e obteve o grau de doutor
em literatura comparada pela Universidade de Harvard. Os seus primeiros
livros são Joseph Conrad and the Fiction of Autobiography (1966) e Beginnings (1975). Desenvolveu a sua actividade docente como professor de
literatura comparada na Universidade de Columbia. A partir da Guerra dos
Seis Dias, em 1967, empenha-se na defesa da causa palestiniana nos EUA. Será
Membro do Conselho Nacional Palestiniano a partir de 1977, tendo vindo a
abandonar a instituição em 1991. Depois de Orientalism (1978), publica The
Question of Palestine (1979), Covering
Islam (1981), The World, the Text,
and the Critic (1983) e After the Last Sky (1986). No âmbito da musicologia
publica Musical Elaborations (1991), e em Culture and Imperialism (1993)
amplia o estudo do discurso colonialista. Em 1993 posiciona-se abertamente
contra os Acordos de Oslo. No ano seguinte publica The Politics of
Dispossession, a que se seguiriam Representations of the Intellectual (1994) Peace
and Its Discontents (1995). Só regressaria à Palestina 45 anos depois
do exílio. Publicou ainda, entre outros livros, a autobiografia Out of
Place (1999), The End of the Peace Process (2000) e Reflections
on Exile and Other Essays (2000). Morreu aos 67 anos, em Nova Iorque, a 24 de Setembro de 2003.
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