As figuras do mundo mítico estão sujeitas a uma constante interpretação
da existência a partir da líbido: intervém uma especulação (no sentido de visão
no espelho) que cada vez mais separa a volúpia da sua função propriamente animal;
a procriação, com a sua original referência ao cosmos, ao poder criador, cede
perante a experiência da perturbação, do êxtase; nos mistérios, os conteúdos
do mito, as imagens do orgasmo, associadas à morte e da ressureição, tornam-se
símbolo premonitório da imortalidade. Tal é a inesperada vingança das divindades
asiáticas sobre as divindades «olímpicas»; os jogos cénicos que essas divindades
haviam instituído em Roma acabam por trazer uma dupla libertação:a do prazer
erótico coincide com a da sua função cultural; os deuses
olímpicos, na sua identidade definitiva, suficientemente «amadurecidos» para
porem em causa com a sua actuação a ordem universal, só aparecem no teatro
na infinita contingência das suas aventuras amorosas. Os jogos cénicos consagram
a sua gratuidade e a apoteose da volúpia «inútil».