Giorgio Agamben assume os
seus pecados: escreve sobre a literatura, a filosofia, a arte e o pensamento
ocidentais em tom provocatório, desafiador e algumas vezes desdenhoso.
Paralelamente, discorre com reverência sobre os mesmos assuntos.
Entre as duas posturas paradoxais (ou talvez não) encontra-se
um conhecimento profundo dos assuntos em causa.
Estas Profanações são, por isso, deambulações entre pilares e vanguardismos,
que é o mesmo que dizer entre a Antiguidade e o mainstream.
Escreve-se sobre Horácio com referências a Duchamp. Fala-se
tão
facilmente sobre Benjamin, Kafka e Proust, como sobre o Pinóquio,
a Dulcineia de D. Quixote ou Júpiter. Entre Aristóteles
e Orson Welles há reflexões sobre o poder da imagem (despoletada
pela importância da fotografia), sobre o autor literário
como génio, sobre o mito e a paródia, o Messias e as
pornostars. Agamben reconhece o legado de Foucault e a sombra incontornável
de Dostoievski. Sobre todos estes temas, contudo, insiste, desafiadoramente,
em espalhar as brasas do elogio profanatório:
“Os juristas
romanos sabiam perfeitamente o que significava «profanar». Sagradas
ou religiosas eram as coisas que pertenciam, fosse qual fosse a forma,
aos deuses. (...) E se consagrar (sacrare) era o termo que designava
a retirada das coisas da esfera do direito humano, profanar significava,
por oposição, restituí-las ao livre uso pelos
homens.”
Giorgio
Agamben nasceu em
Roma em 1942. É filósofo,
ensaísta e professor universitário em Veneza e em Paris.
Foi aluno de Martin Heidegger, trabalhou com Pier Paolo Pasolini e
escreveu sobre Italo Calvino, Jacques Derrida e Walter Benjamin, entre
outros. Profanações é a segunda obra do autor
publicada pelos Livros Cotovia, depois de Ideia da prosa (1999).
|