A Aquiles nada custa, e tudo custa
a Heitor. E no entanto não é Heitor, mas Aquiles, sempre cheio de rancor
apesar dos seus triunfos, que incessantemente se "enche de lamúrias".
O homem do ressentimento, na Ilíada, não é o fraco, mas o herói que tudo
soube vergar com a sua força. Em Heitor a vontade de felicidade. Essa
pouca felicidade verdadeira que importa acima de tudo porque coincide
com a verdade da vida merecerá ser defendida até ao sacrifício dessa
própria vida, à qual ele terá dado medida, forma e preço. Mesmo na derrota,
a coragem de Heitor não se apaga perante o heroísmo de Aquiles [...]
Rachel Bespaloff, originária de uma família judaica ucraniana, nasceu em Nové Zagore, na Bulgária, em 1895. A famíla estabeleceu-se em Genebra, em 1897. Brilhante aluna de Ernest Bloch, renunciou a uma carreira musical quando casou com Shraga Nissim Bespaloff, em Paris, em 1922.
Em 1925 conhece Léon Chestov, que a apresenta ao seu círculo de amigos, onde se encontram algumas grandes figuras do pensamento "existencial": Daniel Halévy, Gabriel Marcel, Benjamin Fondane e Jean Whal, com quem manterá uma valiosa correspondência. Em 1935 reune os seus artigos numa primeira obra, com o título Cheminements et Carrefours. Embarca, em 1942, com a família para Nova Iorque, onde frequenta o meio dos intelectuais europeus exilados. Trabalha primeiro na rádio para a secção francesa de "A Voz da América", e em seguida ensina literatura francesa no Colégio de Mount Holyoke. É aí que conclui o seu segundo livro, Sobre a Ilíada, iniciado em 1939.
Entre os numerosos ensaios escritos nessa época sobre Camus, Sartre, Péguy, Montaigne, deve referir-se também De la double appartenance, uma reflexão sobre a identidade judaica e o destino das comunidades judaicas no mundo.
Rachel Bespaloff põe fim aos seus dias a 6 de Abril de 1949, em pleno período criador e depois de empreender um vasto estudo sobre "A liberdade e o instante".
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