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Não será exagero
dizer-se que Paul Ricoeur começou a carreira filosófica
por uma tradução, a de Ideen zu einer reinen Phänomenologie
und phänomenologischen Philosophie de Edmund Husserl; dedicando-se
mais tarde à hermenêutica, de que se tornou um dos grandes
representantes em França. A tradução e os problemas
que esta coloca, tanto no plano linguístico como do ponto de
vista mais abrangente da filosofia da linguagem, estão assim
no centro da sua reflexão. Ricoeur debruçou-se também
sobre a interpretação da Bíblia, debatendo minuciosamente
os contextos das suas diferentes traduções.
Os três
textos aqui reunidos constituem um conjunto coerente onde o autor procura
libertar-se do dilema já muito conhecido: teoricamente, a tradução
seria impossível, mas tem sido sempre praticada. Ricoeur pretende
acabar com esta máxima prejudicial à tradução,
propondo que esta última seja encarada como a criação
de uma “equivalência sem identidade”. Permite-nos deste modo
compreender a necessidade de voltar constantemente a traduzir os textos
que cada época tenta transformar em “clássicos”. A tradução
surge então como uma das componentes da dinâmica cultural
que institui um presente, fazendo uma releitura da tradição,
assim restituída à vida.
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