Durante 20 anos, RDC
não escreveu ficção. Em 1999, no entanto, publicava um livro dificilmente
classificável, porque simplesmente mágico: Vou lá
visitar pastores é uma «exploração epistolar» sobre as idas e
vindas do antropólogo pelo território Kuvale, que se estende para sul
passando além do meridiano de Namibe (a antiga Moçâmedes) até às margens
do Kunene - uma poética dos nomes e dos lugares. O dispositivo adoptado
pelo escritor é engenhosamente ficcional: consiste na «transcrição»
de uma colecção de cassetes em que o narrador, pressupondo um interlocutor
virtual, desenrola o relato das suas anotações de campanha, penetrando
mais e mais no território do Outro (os kuvale), para melhor compreender
a essência silenciosa da paisagem: a narrativa, lenta, minuciosa, «ricamente
lavrada» (como outrora se diria), toda ela recheada de digressões e
reflexões críticas e ensaísticas, funciona como uma espécie de ritual
de encantamento, que obriga o leitor a internar-se com ele pela paisagem
(terras, gentes, cotumes) que é a própria matéria de que se faz o livro.
António Mega Ferreira,
in "Visão", 30 de Junho de 2005
[...] O "meu livro",
o livro para mim, aquele que andava a procurar desde a minha adolescência
e decidira por fim escrevê-lo para poder contar-me a mim
mesmo o que desde sempre queria saber sobre os Kuvale e ninguém
o sabia, esse livro jamais eu o faria, e nem podia , porque andava
a vivê-lo.
[...] uma aventura pessoal
que me coloca, em plena viragem do milénio e cercado pelo rumor
histórico
da globalização, empenhado em decifrar os termos da resolução,
rigorosamente situados no tempo e no espaço, revelados pela
constatação empírica
e não pela realidade livresaca, de uma cultura milenar que todos
os dias se reafirma actualizando, desenvolvendo no presente, uma estratégia
de integração total entre o meio que lhe assiste, as
pessoas que a compõem e o "impalpável" que
a envolve, sem no entanto poder descurar nunca a relação
com um exterior que a nega e a longo termo acabará
por inviabilizá-la.
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