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A Formosa
Pintura do Mundo é uma sequência de ficções interligadas sobre a
pintura, a música e o desejo, onde se cruzam figuras históricas (Camões,
Voltaire) com personagens da imaginação do autor. Central neste livro
é a noção de Arcádia, a paisagem imaginária por excelência. Em pano de
fundo, paisagens do mundo real: Sintra, as lonjuras do Alentejo e de
Trás-os-Montes; a magia urbana de Lisboa, Porto e Roma. O regresso à
ficção de Frederico Lourenço, depois de À beira
do Mundo (2003)
Engoli
em seco. Ele ergueu o copo, como que em jeito de saudação. Esboçou
um sorriso. Reciproquei o gesto, confuso. Despir-me à frente dele?
Dei por mim a retesar os músculos das pernas. Bebi um gole de vinho.
Era
branco, muito frio, e evocava seixos, milenarmente polidos, na transparência
de um riacho.
Frederico
Lourenço, A Formosa Pintura do Mundo
Imprensa
Há livros
que nos deixam a pensar. Abrem zonas de interrogação
que em geral evitamos. Não é que tratem graves questões
da existência (os grandes temas: morte, amor, opressão,
corrupção política, e mais o que se achar que é grande)
mas o que de miúdo a vida faz, pequenos gestos, ideias do quotidiano,
acções dúbias e impensadas, a determinação
da memória em cada passo, a nossa cultura a ser convocada ou
a falta dela, beiras do sentir e compreender. A
Formosa Pintura do Mundo, de Frederico Lourenço, com
a sua frase corredia e expressão linear, impressiona pela elegância
enxuta, uma forma de contar que não surge preocupada com a elaboração
da escrita, antes é ocupada (como se diz da mulher grávida)
de sentidos, alusões e um desafectado dizer.
Maria
Alzira Seixo, "Visão",
6-12.10.05.
[...] determinante
é o modo como a par e passo cada um [dos contos] vai
sendo formado ou, noutros casos, o modo como rasgam o tecido da narrativa
e como conseguem com as palavras criar horizontes de sentido, de experiências,
de coloraturas. existe um tom que se mantém ao longo de todas as páginas
e esse é o da confidência, o tom daquelas palavras que se segredam
ao ouvido de alguém quando se fala de um outro: ausente, espectral
e, por vezes, idealizado.
Nuno
Crespo, in Público, 8.10.05
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