
As três
narrativas que compõem O monstro de Sérgio Sant’Anna
situam-se respectivamente numa cidade do interior do Brasil, numa prisão
do Rio de Janeiro, e num hotel de cinco estrelas em Chicago. A disparidade
entre os lugares acompanha a variedade no registo: da epístola à entrevista
policial, os modos de narrar são aqui, como em toda a obra de
Sérgio Sant’Anna, postos em questão. O resultado é a
forma única como se faz conviver o insólito e o banal,
a transgressão e uma pretensa normalidade, em histórias
em que, ora encarado como um instrumento de poder, ora como via para
a transcendência, o sexo é a figura central.
Esta
carta então apócrifa, egoísta, orgulhosa, que se quer
uma essência das cartas, utópica e abstrata como uma melodia
vermelha, entoada por uma mulher que talvez nem seja engenheira, talvez
a louca em trajes fétidos no pátio do asilo e que se
chama Jussara, mas assina Beatriz como quem se veste de princesa para
um amante inventado; que inventa ainda uma cachoeira, uma casa, uma
cidade e até seu prefeito; esta louca que talvez nem seja mulher,
mas um homem solitário em seu quarto acanhado e que constrói
para si uma amante louca em nome de quem remete a si mesmo ou ao léu
uma carta que tenha a duração escrita de uma noite.
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