Então um dia ganhei coragem, sentei-me no banco à tua frente, e disse-te
" acho que me enamorei pela sua imagem na janela", tu não percebeste, "como".
Repeti a frase, "acho que me enamorei pela sua imagem na janela", retorquiste
"já ninguém diz isso: enamorei-me". [...]
Alguns comboios depois já éramos amigos ou qualquer
coisa, conversávamos
sobre tudo e sobre nada para o tempo passar, como passava o nocturno
cenário
lá fora. " O que é que achas e mim?" perguntei-te,
de repente até já nos
tratávamos por tu. Disseste que me achavas piada, foram estas
as tuas palavras, mas o problema, além de teres uma mulher e
um filho que não querias deixar
por nada deste mundo, era seres tão mais velho, "tens que
idade?", respondi
vinte e um, "estás a ver, eu tenho o dobro". Expliquei
que isso não tinha
a mínima importância, importante era, por exemplo, eu saber
como te chamavas, era incrível ainda não termos nomes
um para o outro. Disseste "João". Eu
também menti, "Maria". Era um amor sem apelidos e com
nomes falsos. Se era amor aquilo, se foi amor aquilo.
Jacinto
Lucas Pires, Para averiguar do seu grau de pureza, “Sombra e Luz”
A história repete-se, ouço os gemidos de prazer da mulher do atirador de
facas na rulote aqui ao lado. É de certeza outra vez o sacana do mágico.
Sempre que o marido, coitado, sai para jogar às cartas com os amigos, o
homem-bala, o encarregado dos elefantes e o anão Quintino, a desavergonhada,
vá-se lá saber por que ínvios mecanismos, avisa o amante que a costa está
livre e logo se põem os dois nisto.
Jacinto Lucas
Pires, Para averiguar do seu grau de pureza, “O Ciúme”
Imprensa:
“Jacinto Lucas Pires entrou, com este livro, pela porta grande.
Para consegui-lo, pôs-nos diante de treze ‘janelas’. Quem ler saberá. Elas dão
para um mundo belo e intranquilo.”
Fernando Venâncio, Jornal de Letras
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