
Samuel Rawet nunca foi um
homem simples. Viveu entre duas culturas – a judaica e a brasileira –,
entre duas carreiras – a de engenheiro e a de escritor. Viveu à margem,
tanto na literatura quanto em sua opção sexual. Não é de
se espantar, portanto, que sua prosa revele um mundo atormentado, solitário
e irônico.
Nos contos aqui reunidos, o leitor se confronta com sentimentos incômodos,
como o ódio e o desejo de matar. No entanto, os personagens nunca
efetivam o ato, pois mais vale uma palavra ao sangue derramado. À pergunta
“Quando a dor é intensa, quando o sofrimento chega ao limite de
si mesmo, qual o caminho?”, Rawet responde escrevendo. A escrita é sua
verdadeira arma: contra as instituições do trabalho e da
família, contra a banalidade do cotidiano e o jogo de aparências
da sociedade.
Se as exigências sociais controlam o indivíduo, a literatura elabora
mecanismos de “descontrolá-lo”. Viagens de Ahasverus... é a narrativa
de um personagem que não consegue se fixar num corpo, numa terra, nem
num tempo. Aqui, a linguagem concisa dos contos dá vazão a uma
linguagem exaltada, como se houvesse uma necessidade pungente de exceder os limites
do corpo.
Sem destino preciso, Ahasverus condensa a figura do judeu errante e a do malandro
carioca que perambula pelas ruas do Rio de Janeiro. Assim como ele, o leitor
que se aventurar pelos textos de Rawet logo perceberá que neles nada é certo
nem seguro, que todos os caminhos se dissolvem e se refazem, numa prosa tão árdua
quanto saborosa.
Tatiana Salem Levy
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