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“Ler Sexo é uma faca
de dois gumes. Por um lado desfrutaremos, inevitavelmente, o prazer e a alegria
que nascem da certeza de estarmos diante de um verdadeiro escritor, daqueles
destinados a deixar marcas em seus leitores, mas também em seus companheiros
de ofício. Esse prazer, que para alguns surgirá com um sabor
de descoberta, para outros, que já conheciam o autor desde o quase
secreto e cultuado Amor (1997), será a confirmação do
talento anunciado. Mas o trágico é o outro gume dessa faca.
Como chegar ao final da leitura deste livro sem reconhecer que o realismo
mais cru, para dar conta da barra pesada dos nossos tempos, deve tingir-se
com os tons do absurdo mais cruel? Como esquivar-se ao fato de que a falta
de heróis ou gestos e falas imprevisíveis em Sexo corresponde
a uma sociedade desdramatizada, composta por autômatos? Como não
perceber que a falta de profundidade dos personagens (que em tempos menos
sombrios poderia ser indício de imperícia do romancista) hoje é um
retrato do nosso próprio achatamento e prova contundente da desassombrada
capacidade narrativa de André Sant’Anna. Apesar de ser tentador vincular
todo o autor novo a alguma linhagem literária (Celine? Henry Miller?), é inútil
tentar incluir a escrita de André Sant’Anna em qualquer escaninho
já catalogado pelos estudos literários. Sexo se desenvolve
num fluxo muito original e não só para os padrões atuais
da literatura brasileira. Mas com certeza é no extremo oposto aos
esteticismos, de vanguarda ou outros, que se inscreve essa voz, de grande
escritor”
Carlito Azevedo, poeta e editor da revista de poesia luso-brasileira
Inimigo Rumor
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