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Solte
os cachorros, publicado no Brasil em 1979 é um
livro de contos, segundo a catalogação do editor brasileiro,
não deixando no entanto de ser, como a autora explica, um
prolongamento da sua poesia: “Eu não sei como isso acontece
com outros autores, mas se eu pretender e fizer um esforço
para libertar minha prosa de qualquer lírica, então
vou escrever a coisa mais horrível do mundo. Minha prosa nasce
assim, não é que eu inclua poesia nela”. “Escrevendo
prosa ou poesia, quero atingir a poesia, meu objectivo é a
poesia.”
Isto
implica o esforço natural e necessário de conseguir
e manter o amor: um decotezinho mais brejeiro, batom Anaconda
de brilho, um puxadinho de nada a lápis crayon no cantinho
dos olhos, fazer aquela cara que eu sei fazer, pondo minha
alma todinha num certo modo de baixar e levantar os olhos,
primeiro oblíquo, depois direto. Porque eu gosto da
humanidade, em particular da representação masculina
da humanidade. É muito divertido comerciar com os homens,
estimulante como nenhuma outra coisa é. Eles ficam encantadores,
querendo pegar a gente em falso. Isso o homem comum. Imagine
os santos! Fico em estado de loucura, tentação
tentada. Tem coisas que eu faço bem. Posso fazê-las
mesmo? Tudo é de Deus, menos o pecado. Você que
me escuta e tem coração maldoso, ri pra dentro
pensando que eu sou fácil. Não sou. Eu sou muito
pedregosa, caçadeira de chifre na cabeça de cavalo,
caçadeira de indaca. Invez de casar e cuidar dos filhos,
pôr espinafre moído na sopa deles pra eles ficarem
fortes, pregar com linha dupla os botões na camisa do
meu homem, eu fico teologando em latim, fico querendo um Romeu
constantemente na minha janela, falando e tocando violão
pra mim como se eu fosse a única mulher desta terra
e a mais bonita, sem a qual homem algum pode viver. Ó meu
Deus, no fundo é só isso mesmo que eu quero, é só por
isso que tantas vezes uso Seu Santo Nome, em socorro do meu
humano amor. É usá-lo em vão? Eu quero
a santidade na reunião de literatos discutindo a metáfora.
Eu pressinto que pode.
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