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Na praça
do Império ele deu-me a mão para atravessarmos entre a confusão do
tráfego
e eu apertei-lha com força, sem pensamentos reservados. Mais tarde ele
disse-me que nunca esqueceria esse momento mágico em que a minha mão
se ajustara à sua com a suavidade de uma luva. Costumava referir-se a
essa noite como um tempo estranho, de uma serenidade que desafiava as
leis da natureza, e via nisso influência do equinócio de Outono, mas
eu não ligava porque tudo o que ele dizia tinha a marca da sua pouca
experiência. Quantas vezes me voltou a dizer "naquela noite em que me
deste a mão..." e eu, sem poder desmenti-lo, não me atrevia a dizer que
a emoção desse instante se diluía para mim entre impressões e sentimentos
mais poderosos. Imprensa
“Não
creio que este conjunto de duas novelas que saiu há cerca de ano
e meio sob o título de O último amante tenha sido objecto
de particular atenção. Reconheça-se que se trata
de um objecto estranho. Nada sabemos de Teresa Veiga, a autora do livro.
E, lido o livro, temos uma enorme dificuldade em perceber a que tempo
pertence, a que geração poderá estar vinculada,
qual é o quadro das suas afinidades literárias. Contudo,
O último amante é uma obra interessante, que se lê com
gosto e alguma perturbação. [...]
Sublinhemos em primeiro lugar um notável domínio dos mecanismos
narrativos. Mas o mais sugestivo é, sem dúvida, o modo como o discurso
na primeira pessoa das protagonistas nos mostra, e simultaneamente nos esconde,
mas perversamente nos dá a ver com extrema lucidez, aquilo que de uma
maneira deliberada pretende silenciar. A ambiguidade permanente em que tudo se
move, a oscilação entre o puritanismo hipócrita e a sexualidade
desviada, tudo isto cria um estranho clima, que, habitualmente colocado no espaço
mágico do princípio do século, nos implica e seduz.
Eduardo Prado Coelho, Público, 22.8.1991
“[Teresa
Veiga] revela um hábil manuseamento de escrita comprovado neste
belo livro, de discurso fluido e cuidado, por vezes perturbante na forma
como aborda a psique feminina e a difícil teia que anima as relações
humanas. É que o ambiente que nos surge retratado num e noutro
texto é de tendência novelesca, e todo o fio narrativo se
apoia no feminino. No século passado, a personagem privilegiada
dominante da novela (e também o seu receptor preferencial) é a
mulher; ora o mundo ficcional que anima O último amante, além
de se situar nessa linha fronteiriça temporal que separa os dois
séculos, é feminino, começando logo pela voz narradora
(que é simultaneamente a protagonista) de A Minha Vida com Bela
e de O Último Amante.”
Ana Luísa Amaral, "Colóquio-Letras", 1990
“O Último Amante [...] é um livro onde se caldeiam as emoções
e os silêncios, os símbolos e os mitos; o mágico, imaginado
a confundir-se todo o tempo com o confessional que logo se desmente.
A escrita e a escritora.
Dickinson, ou Bronte, ou Espanca, ou ela mesma. Todas nós, ali retratadas
e simultaneamente negadas.
Envolvidas e apartadas umas nas outras. No trilho do trilho do feminino, esgarçado
pela dúvida. Tão vulgares e invulgares ao mesmo tempo.
Tal como este volume de Teresa Veiga, aliás; sedento e calmo, cintilante
e tão perto da histeria (sobretudo na última novela) inesperadamente
logo perto da banalidade e do sossego.
Em vários rituais diferentes.
Desafiando-se todo o livro a autora a si mesma... num jogo em que ela ousa
ir tão longe que já a vista e o entender não podem alcançar.”
Maria Teresa Horta, Diário –Livros, 27.4.1990
“Este livrinho onde se reúnem duas novelas de uma autora que parece
ter-se revelado assim, de repente, sem avisar ninguém (nem especialistas,
que ficaram perplexos perante o livro) coloca de modo muito curioso duas problemáticas
de leitura [...]. Um livro a merecer bastante atenção e um estudo
dessas problemáticas da «leitura».”
D. S. Bruno, Diário de Notícias, 3.6.1990
“Não é só o
virtuosismo da técnica o que aqui nos faz, cedo, entregar as armas. Fazem-no
também a perspicácia
teimosa e ávida, a travessura dum humor nunca reprimido. [...] E é um
facto: Teresa Veiga tem o segredo da anotação discreta e incisiva.
Há uma sabedoria nesta escrita, há um agudo sentido da oportunidade,
e a nostalgia é aqui o único sentido permitido. Talvez porque é ele
o único de que nunca poderemos arrepender-nos.”
Fernando Venâncio, JL –Jornal de Letras, Artes e Ideias, 5.11.1991
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